terça-feira, 14 de setembro de 2010

MIDNIGHT SUN. Capítulo 3 - Fenômeno

Sinceramente, eu não estava sedento, mas decidi caçar novamente naquela noite. Uma pequena quantidade para prevenir.


O Carlisle veio comigo, não estávamos juntos sozinhos desde que voltei de Denali. Enquanto corríamos pela floresta negra, eu ouvi-o a pensar sobre aquele rápido adeus da semana passada.

Na sua memória, vi a maneira com que as minhas feições se tinham contraído num feroz desespero. Senti-o a surpreender-se e repentinamente a preocupar-se.

“Edward?”

“Eu tenho que ir Carlisle. Tenho que ir agora.”

“O que é que aconteceu?”

“Nada. Ainda. Mas irá acontecer se eu ficar.”

Ele alcançou o meu braço. Senti como o magoei quando recusei a mão.

“Eu não entendo.”

“Já alguma vez… já houve algum momento…”

Vi-me a dar um profundo suspiro, vi a selvagem luz dos meus olhos através do filtro da preocupação dele.

“Já alguma pessoa cheirou melhor para ti do que o resto das pessoas? Muito melhor?”

“Oh.”

Quando percebi que ele tinha entendido, o meu rosto descaiu com vergonha. Ele alcançou-me para me tocar, ignorando quando eu recuei de novo, e deixou a sua mão no meu ombro.

“Faz o que puderes para resistir, filho. Vou sentir a tua falta. Aqui, leva o meu carro. É mais rápido.”

Ele estava a perguntar-se agora se antes tinha feito a coisa certa, mandando-me para longe. Estava a perguntar-se se me tinha magoado com a sua falta de confiança.

“Não,” Sussurrei enquanto corria. “Aquilo era o que eu precisava. Poderia ter traído a tua confiança tão rapidamente se me tivesses dito para ficar.”

“Eu lamento que estejas a sofrer, Edward. Mas tens de fazer o que puderes para manter a criança Swan viva. Mesmo se isso signifique que terás que nos deixar novamente.”

“Eu sei, eu sei.”

“Por que é que voltaste? Sabes o quão feliz fico por te ter aqui, mas se isso é muito difícil…”

“Eu não gostei de me sentir um cobarde,” Admiti.

Nós abrandámos. Estávamos praticamente a caminhar através da escuridão agora.

“Melhor isso do que colocá-la em perigo. Ela vai partir dentro de um ano ou dois.”

“Tens razão, eu sei disso.” – Mas, pelo contrário, as palavras dele apenas me deixaram mais ansioso para ficar. A rapariga ia-se embora num ano ou dois…

O Carlisle parou de correr e eu parei com ele; ele virou-se para examinar a minha expressão.

Mas não te vais embora, não é?

Eu deixei cair a cabeça.

É por orgulho, Edward? Não há que ter vergonha por…

“Não, não é o orgulho que me prende aqui. Não agora.”

Sem lugar para ires?

Ri-me levemente. “Não. Isso não me iria impedir se quisesse realmente ir embora.”

“Nós vamos contigo, claro, se for isso que precisas. É só dizeres. É só pedires. Eles não terão má vontade com isso.”

Ergui uma das sobrancelhas.

Ele riu-se. “Sim, A Rosalie provavelmente teria, mas ela deve-te isso. Seja como for, é muito melhor para nós, irmos agora, sem ter causado nenhum dano, do que irmos mais tarde, depois de uma vida ter acabado” Todo o humor tinha acabado.

Fiquei com medo das suas palavras.

“Sim,” Concordei. A minha voz soou rouca.

Mas não vais partir?

Suspirei. “Eu devia.”

“O que é que te prende aqui, Edward? Não consigo entender…”

“Não sei se consigo explicar…” Mesmo para mim, não fazia sentido.

Ele mediu a minha expressão por um longo tempo.

Não, eu não consigo entender. Mas vou respeitar a tua privacidade, se preferes.

“Obrigado. É generoso da tua parte, visto que não dou privacidade a ninguém.” Com uma excepção. E eu ia fazer o que podia para impedir isso, não ia?

Todos nós temos as nossas peculiaridades. Ele riu-se novamente. Vamos?

Ele tinha acabado de sentir o rasto de um pequeno rebanho de veados. Era difícil reunir muito entusiasmo pelo que era, mesmo nas melhores circunstâncias, era um aroma que fazia tudo menos dar água na boca. Agora, com a memória do sangue fresco da rapariga na minha cabeça, este cheiro revirava-me o estômago.

Suspirei. “Vamos” - Concordei, apesar de saber que forçar mais sangue pela minha garganta não ia ajudar muito.

Ambos assumimos uma posição de caça e deixámos que o rasto guiasse e nos puxasse em silêncio para a frente.







Estava mais frio quando voltámos para casa. A neve derretida tinha congelado novamente; era como se um fino lençol de vidro cobrisse tudo - cada ponta de pinheiro, cada folha das plantas, cada lâmina de relva estava congelada.

Enquanto Carlisle se foi vestir para o seu primeiro turno no hospital, eu fiquei perto do rio, à espera que o sol nascesse. Sentia-me quase inchado com tanto sangue que tinha consumido, mas eu sabia que a falta de sede ia significar pouco quando me sentasse ao lado da rapariga outra vez.

Frio e estático como a pedra em que me sentei, encarei a água fria que corria ao lado da margem congelada, vi além daquela cena.

O Carlisle estava certo. Eu devia deixar Forks. Eles podiam espalhar alguma história para explicar a minha ausência. Intercâmbio na Europa. A visitar parentes distantes. Fuga adolescente. A história não importava. Ninguém ia questionar muito.

Ia demorar apenas um ano ou dois para que a rapariga desaparecesse. Ela ia seguir em frente com a vida dela. Ela tinha que seguir em frente com sua vida. Iria para a faculdade nalgum lugar, ia ficar mais velha, começar uma carreira, possivelmente até se ia casar com alguém. Eu conseguia imaginar isso. Conseguia ver a rapariga toda vestida de branco a andar num passo medido, de braço dado com o seu pai.

Foi estranho, a dor que aquela imagem me causou. Não conseguia entender aquilo. Eu estava com ciúmes, por que ela tinha um futuro que eu nunca iria ter? Aquilo não fazia sentido. Todos os humanos à minha volta tinham o mesmo potencial. Uma vida, e eu raramente tinha parado para os invejar.

Eu devia deixá-la com o seu futuro. Parar de arriscar a vida dela. Essa era a coisa mais acertada a fazer. O Carlisle escolhia sempre a maneira certa. Eu devia ouvi-lo agora.

O sol apareceu atrás das nuvens, e a luz fraca brilhou no vidro congelado

Mais um dia, decidi. Eu ia vê-la mais uma vez. Podia lidar com aquilo. Talvez mencionasse o meu desaparecimento pendente, preparar a história.

Isto ia ser difícil. Conseguia sentir isso na pesada relutância que já me estava a fazer pensar em desculpas para dar, para estender o prazo limite por dois dias, três, quatro… Mas eu ia fazer a coisa certa. Eu sabia que tinha de confiar no aviso de Carlisle. E eu também sabia que podia ser muito difícil tomar a decisão certa sozinho.

Demasiado difícil. Quanta desta relutância vinha da minha obsessiva curiosidade, e quanta vinha do meu insatisfeito apetite?

Fui para dentro para trocar de roupa, para ir à escola.

A Alice estava à minha espera, sentada no topo das escadas do terceiro andar.

Vais-te embora outra vez. – Acusou-me.

Suspirei e acenei com a cabeça

Não consigo ver para onde é que estás a ir desta vez.

“Ainda não sei para onde é que vou” - Sussurrei.

Eu quero que fiques.

Balancei minha cabeça.

Talvez eu e Jazz pudéssemos ir contigo?

“Eles vão precisar mais de ti agora, se não estiver aqui para olhar por eles. E pensa na Esme. Ias levar metade da família embora de uma vez?”

Vais fazê-la ficar tão triste.

“Eu sei. Por isso é que tens que ficar.”

Não é o mesmo sem ti aqui, sabes disso.

“Sim. Mas eu tenho que fazer o que é certo.”

Mas há várias maneiras certas, e muitas erradas, não há?

Por um curto momento ela foi até uma das suas estranhas visões; assisti juntamente com ela enquanto as imagens indistintas apareciam e giraram. Vi-me a mim mesmo dentro dessas visões com estranhas sombras que eu não conseguia compreender, enubladas, formas imprecisas.

E então, de repente, a minha pele estava a brilhar à luz do sol numa pequena e aberta clareira. Eu conhecia aquele lugar. Mas havia uma figura na clareira comigo, mas novamente, era indistinta, não havia ali o suficiente para reconhecer. As imagens tremeram e desapareceram quando um milhão de pequenas escolhas rearranjaram o futuro outra vez.

“Não percebi muito disso” – Disse-lhe quando a visão ficou escura.

Nem eu. O teu futuro está a mudar e mudar tanto que eu não consigo acompanhar. Mas eu acho que…

Ela parou, e vagueou por uma vasta colecção de outras visões recentes para mim. Eram todas iguais - borradas e vagas.

“Mas eu acho que algo está a mudar” - Disse em voz alta. “A tua vida parece estar numa encruzilhada.”

Ri-me, austero. “Tens noção de que agora soas a uma cigana mentirosa num parque de diversões, certo?”

Ela mostrou-me a sua pequena língua.

“Mas hoje está tudo bem, não é?” - Perguntei, com a minha voz abruptamente apreensiva.

“Não te vejo a matar ninguém hoje,” – Garantiu-me.

“Obrigado, Alice.”

“Vai mudar de roupa. Não vou dizer nada. Vou deixar que contes aos outros quando estiveres pronto.”

Ela levantou-se e seguiu escada abaixo, os seus ombros um pouco curvados. Vou sentir a tua falta. Muito.

Sim, eu também ia sentir a falta dela.

Foi uma viagem calma até à escola. O Jasper conseguia perceber que a Alice estava chateada com alguma coisa, mas ele sabia que se ela quisesse falar sobre isso já o teria feito. O Emmett e Rosalie estavam distraídos, a ter outro dos seus momentos, a olhar nos olhos um do outro com admiração. Era um tanto ou quanto nojento de se assistir pelo lado de fora. Nós todos já sabíamos o quão desesperadamente apaixonados eles estavam. Ou talvez eu apenas estivesse amargo por ser o único sozinho. Alguns dias eram piores do que outros de se conviver com três casais perfeitos e apaixonados. Este era um desses dias.

Talvez eles fossem mais felizes sem mim por perto, com o meu mau temperamento, mau e hostil como o idoso que eu devia ser por agora.

Claro, a primeira coisa que fiz quando chegámos à escola foi procurar a rapariga. Apenas para me preparar novamente.

Certo.

Era embaraçoso como o meu mundo de repente parecia estar vazio de tudo, menos dela. Toda a minha existência centrada à volta daquela rapariga, em vez de mim mesmo.

Mas realmente, era fácil de entender. Depois de oitenta anos da mesma coisa, todos os dias, todas as noites, qualquer mudança era motivo de interesse.

Ela ainda não tinha chegado, mas eu conseguia ouvir o barulho dos travões do motor da sua carrinha ao longe. Encostei-me ao lado do carro para esperar. A Alice esperou comigo, enquanto os outros foram directamente para as suas aulas. Estavam aborrecidos com a minha fixação. Era incompreensível para eles como qualquer humano podia despertar tanto interesse em mim por tanto tempo, independentemente de quão delicioso o cheiro dela fosse.

A rapariga entrou aos poucos no meu campo de visão, os seus olhos estavam na estrada e as suas mãos a segurar o volante com força. Parecia estar ansiosa com alguma coisa. Levei um segundo a entender o que é que esse algo era, para perceber que todos os humanos tinham a mesma expressão hoje. Ah, a estrada estava escorregadia por causa do gelo, e eles estavam todos a conduzir com cuidado. Eu conseguia perceber que ela levava o risco a sério.

Aquilo parecia encaixar-se no pouco que eu já aprendera sobre a sua personalidade. Adicionei aquilo à pequena lista: ela era uma pessoa séria, responsável.

Estacionou não muito longe de mim, mas ainda não tinha notado a minha presença, a olhar para ela. Perguntei-me sobre o que ela iria fazer quando percebesse. Iria corar e ir embora?

Aquele era o meu primeiro palpite. Mas talvez ela olhasse para mim também. Talvez ela viesse falar comigo.

Inspirei fundo, a encher os meus pulmões, esperançoso, apenas por precaução.

Ela saiu da cabina da carrinha com cuidado, testando o chão escorregadio antes que pusesse o seu peso todo nele. Não olhou para cima, e isso frustrou-me. Talvez eu devesse falar com ela…

Não, isso seria errado.

Em vez de se virar em direcção à escola, ela caminhou até a traseira da carrinha, segurando-se na parte lateral dela de uma forma atrapalhada, não confiando nos seus passos. Isso fez-me sorrir, e eu senti os olhos de Alice na minha cara. Não ouvi o que quer que fosse que aquilo a fez pensar. Eu estava a divertir-me muito a observar a rapariga a olhar para as correntes nos pneus. Ela parecia realmente que estava prestes a escorregar, da maneira que seus pés deslizavam no chão. Mais ninguém parecia ter o mesmo problema. Será que ela tinha estacionado na pior parte do gelo?

Parou por um momento, e olhou para os pneus com uma expressão estranha no rosto. Era… emocional? Como se algo em relação aos pneus a deixasse… emocionada?

Novamente, a curiosidade magoou-me como a sede. Era como se eu precisasse de saber o que é que ela estava a pensar, como se mais nada importasse.

Eu ia falar com ela. Parecia que precisava de uma ajuda de qualquer das maneiras, pelo menos até que estivesse fora da zona escorregadia de gelo. Claro, eu não lhe podia oferecer isso não é? Hesitei, dividido. Tão adversa que ela parecia em relação à neve, dificilmente ia achar agradável o toque das minhas mãos brancas e frias. Eu devia ter trazido luvas…

“NÃO!” Alice ofegou alto.

Instantaneamente, li os seus pensamentos, a imaginar que eu devia ter feito uma escolha errada, e que ela me tinha visto a fazer algo imperdoável. Mas não tinha rigorosamente nada a ver comigo.

O Tyler Crowley decidiu fazer a curva do estacionamento rápido demais. Essa escolha ia fazê-lo deslizar no gelo…

A visão aconteceu menos de meio segundo da realidade. A carrinha de Tyler virou a esquina enquanto eu assistia ao final que deixou a Alice sem fôlego.

Não, esta visão não tinha nada a ver comigo, mas ainda assim tinha tudo a ver comigo, porque a carrinha de Tyler - com os pneus agora a tocar no gelo no pior ângulo possível - ia rodopiar pelo estacionamento e bater na rapariga que se tornara o centro não intencional do meu mundo.

Mesmo sem que a Alice previsse, teria sido fácil adivinhar a trajectória do veículo, a sair do controlo de Tyler.

A rapariga, parada exactamente no lugar errado da traseira da carrinha, olhou para cima, confusa com o barulho dos pneus a raspar no asfalto. Ela olhou directamente para os meus olhos horrorizados, e virou-se para observar a sua morte iminente.

Ela, não! As palavras gritaram na minha mente, como se pertencessem a outra pessoa.

Ainda preso aos pensamentos de Alice, percebi que a visão de repente se tinha mudado, mas não tive tempo para ver o que ia acontecer.

Lancei-me pelo estacionamento, mandando-me entre a carrinha desgovernada e a rapariga petrificada. Movimentei-me tão depressa que tudo parecia desfocado, menos o objecto em que eu estava focado. Ela não me viu, nenhum olho humano conseguiria acompanhar a minha movimentação, ela ainda estava a encarar a sombra que estava prestes espalmar-lhe o corpo na estrutura metálica de sua carrinha.

Agarrei-a pela cintura, movendo-me com demasiada urgência para ser tão gentil quanto devia. No centésimo de segundo entre o tempo que levei para tirá-la do caminho da morte e o tempo que levei para cair no chão com ela nos meus braços, eu estava vividamente consciente da fragilidade do seu corpo.

Quando ouvi a sua cabeça a bater contra o gelo, senti-me como se me tivesse tornado gelo também.

Mas eu não tinha nem sequer um segundo inteiro para me certificar da sua condição. Ouvi a carrinha atrás de nós, a girar barulhenta enquanto batia no corpo metálico da pick-up da rapariga. Estava a mudar de direcção, virando-se, a vir até ela outra vez, como se ela fosse um íman, a puxá-la para nós.

Uma palavra que nunca tinha dito na presença de uma senhora escapou-se entre os meus dentes cerrados.

Eu já tinha feito demasiado. Enquanto quase voava pelo ar para a tirar do caminho, eu estava consciente do erro que estava a cometer. Saber que era um erro não me impediu, mas eu não estava alheio ao risco que estava a correr. Não apenas para mim, mas para toda a minha família.

Exposição.

E isto certamente que não ia ajudar, mas não havia a menor hipótese de eu deixar a carrinha obter sucesso na sua segunda tentativa de tirar a vida da rapariga.

Larguei-a e levantei as minhas mãos, agarrando a carrinha antes que ela conseguisse tocar na rapariga. A força do movimento lançou-me contra o carro parado ao lado da pick-up, e eu conseguia sentir sua forma a afundar-se pelos meus ombros. A carrinha tremeu contra o obstáculo que eram os meus braços, e depois abanou, balançando instável nos dois pneus mais afastados.

Se eu mexesse as mãos, o pneu traseiro da carrinha ia cair nas pernas dela.

Oh, pelo amor de tudo o que é sagrado, será que as catástrofes nunca iam acabar? Havia mais alguma coisa para correr mal? Eu não podia ficar ali, a segurar a carrinha no ar, e ficar à espera de resgate. Nem podia mandar a carrinha para longe. Tinha de considerar o motorista, com os seus pensamentos incoerentes pelo pânico.

Com um rugido interno, empurrei a carrinha para que ela se afastasse de nós por um instante. Assim que se balançou outra vez na minha direcção, segurei-a por debaixo do pára-choques com a minha mão direita enquanto enrolava outra vez o meu braço esquerdo à volta da cintura da rapariga e a arrastava de debaixo da carrinha, puxando-a apertada ao meu lado. O seu corpo mole moveu-se enquanto eu a virava para que as suas pernas estivessem livres. Será que ela estava consciente? Quantos danos ter-lhe-ia infligido na minha desastrosa tentativa de resgate?

Deixei a carrinha cair, agora que já não a podia mais magoar. Ela bateu no pavimento, as janelas partiram-se em uníssono.

Eu sabia que estava no meio de uma crise. Quanto é que ela teria visto? Mais alguém me tinha visto aparecer ao lado dela e depois a agarrar a carrinha enquanto tentava tirar a rapariga lá de baixo? Essas questões deviam ser minha maior preocupação.

Mas eu estava demasiado ansioso para me importar realmente com a ameaça de exposição como devia. Demasiado em pânico por saber que a podia ter magoado com o meu esforço em protegê-la. Demasiado assustado por tê-la tão próxima a mim, sabendo que assim eu ia sentir o seu cheiro se me permitisse respirar. Estava demasiado consciente do calor do seu corpo macio, pressionado contra o meu, mesmo através do obstáculo duplo dos nossos casacos, eu conseguia sentir o calor…

O primeiro medo foi o maior. Quando os gritos das testemunhas elevaram-se à nossa volta, inclinei-me para examinar a sua cara, para ver se ela estava consciente, esperando ansiosamente para que ela não estivesse a sangrar.

Os olhos dela estavam abertos, a olhar em choque.

“Bella?” Perguntei urgentemente. “Estás bem?”

“Estou óptima.” Disse, as suas palavras soaram automáticas num atordoado.

O alívio, tão bom que era quase doloroso, passou por mim com o som da sua voz. Inspirei um bocado entre os meus dentes, e não me importei com a queimadura na minha garganta. Quase que lhe dei as boas-vindas.

Ela debateu-se para se sentar, mas eu não estava pronto para a soltar. Parecia mais… seguro? Melhor, pelo menos, tê-la encostada a mim.

- Tem cuidado. - Avisei-a. - Acho que bateste com a cabeça com bastante violência.

Não havia cheiro de sangue fresco no ar, misericórdia, mas isso não queria dizer nada sobre danos internos. Eu estava abruptamente ansioso para a levar ao Carlisle e ao seu completo equipamento de radiologia.

- Au. - Disse, o seu tom estava comicamente chocado quando percebeu que eu tinha razão sobre a sua cabeça.

- Bem me parecia. - O alívio foi engraçado para mim, fez-me quase ficar tonto.

- Que diabos… - A sua voz falhou, e os seus olhos tremeram. - Como é que chegaste aqui tão depressa?

O alívio tornou-se azedo, o humor desapareceu. Ela tinha percebido de mais.

Agora que parecia que a rapariga estava em forma decente, a ansiedade pela minha família tornou-se severa.

- Estava mesmo a teu lado, Bella. - Eu sabia por experiência que se eu tivesse muita auto-confiança a mentir, fazia com que o questionador se sentisse menos seguro da verdade.

Ela esforçou-se para se mexer outra vez, e desta vez eu permiti. Eu precisava de respirar para fazer o meu papel correctamente, precisava de espaço do seu corpo caloroso, delicioso e quente para que não se combinasse com o seu cheiro para darem cabo de mim. Eu deslizei para longe dela, o mais longe o possível no pequeno espaço entre os destroços dos veículos.

Ela olhou para mim e eu olhei-a também. Ser o primeiro a desviar o olhar seria um erro que apenas um mentiroso incompetente poderia fazer, e eu não era um mentiroso incompetente. A minha expressão estava suave, benigna… Pareceu confundi-la. Isso era bom.

A cena do acidente estava cercada agora. Maioritariamente estudantes, crianças, colegas a empurrarem-se para ver se algum corpo estava visível. Havia ali uma data de gritos misturados com pensamentos chocados. Investiguei os pensamentos uma vez para me certificar que ainda ninguém desconfiava, depois desliguei-os e concentrei-me apenas na rapariga.

Ela estava distraída por causa da confusão. Olhou à volta, a sua expressão continuou chocada, e tentou-se levantar.

Pus a minha mão levemente no seu ombro para pará-la.

- Fica quieta por agora. - Ela parecia bem, mas devia estar mesmo a mover o pescoço? De novo, ansiei pelo Carlisle. Os meus anos como estudante teórico de medicina não se igualavam com os seus séculos de medicina prática.

- Mas está frio. - Ela reclamou.

Ela tinha quase sido esmagada até a morte duas vezes de formas diferentes e tinha-se magoado uma vez mais, e era o frio que a estava a incomodar. Um riso escapou-se de entre os meus dentes, antes que me apercebesse que a situação não era engraçada.

A Bella piscou os olhos, e os seus olhos focaram-se no meu rosto. “Tu estavas além.”

Aquilo pôs-me sóbrio outra vez.

Ela olhou para trás, apesar de não haver mais nada para olhar a não ser a carrinha amassada.

- Estavas junto do teu carro.

- Não, não estava.

- Eu vi-te. – Insistiu, a voz dela era infantil quando era teimosa. O seu queixo sobressaiu-se.

- Bella, eu estava contigo e puxei-te para te afastar da trajectória da carrinha.

Fitei-a até bem fundo nos seus olhos intensos, tentando convencê-la a aceitar a minha versão, a única racional disponível.

O queixo dela endureceu-se. - Não.

Tentei ficar calmo, não entrar em pânico. Se eu a pudesse manter calada por alguns momentos, para me dar uma oportunidade de destruir a prova… e negar a história dela alegando uma lesão na cabeça.

Não devia ser fácil manter esta rapariga silenciosa e reservada, calada? Se ela ao menos confiasse em mim, só por alguns instantes…

-Por favor, Bella. - Disse, e a minha voz estava muito intensa, porque de repente eu queria que ela confiasse em mim. Queria muito, e não só por causa do acidente. Que vontade estúpida. Que sentido faria ela confiar em mim?

- Porquê? – Perguntou-me, ainda na defensiva.

- Confia em mim. - Pedi.

- Prometes explicar-me tudo mais tarde?

Fez-me zangado ter que lhe mentir outra vez, quando eu queria tanto ser merecedor da sua confiança. Então, quando lhe respondi, foi apenas para responder.

- Tudo bem.

- Tudo bem. - Respondeu no mesmo tom.

Enquanto a tentativa de resgate começava à nossa volta - adultos a chegarem, as autoridades foram chamadas, sirenes à distância - tentei ignorar a rapariga e colocar as minhas prioridades em ordem. Procurei em cada mente do estacionamento, das testemunhas e das que chegaram depois, mas não consegui encontrar nada de perigoso. Muitos estavam surpreendidos ao verem-me ao lado de Bella, mas todos concluíram - porque não havia mais nenhuma conclusão a tirar-se - que não tinham reparado em mim parado ao lado da rapariga antes do acidente.

Ela era a única que não aceitava a explicação mais fácil, mas também seria considerada a testemunha menos viável. Ela estava aterrorizada, traumatizada, para não falar da pancada na cabeça. Estava possivelmente em choque. Seria aceitável para a história dela estar confusa, certo? Ninguém lhe ia dar atenção com tantos outros espectadores.

Encolhi-me quando ouvi os pensamentos de Rosalie, Jasper e Emmett, que chegavam agora à cena. Seria o inferno pagar por isto à noite…

Eu queria resolver o problema da mossa que os meus ombros tinham deixado no carro acastanhado, mas a rapariga estava perto de mais. Teria que esperar até que ela estivesse distraída.



Era frustrante esperar - tantos olhos humanos em mim - enquanto os humanos lutavam com a carrinha, tentando afastá-la de nós. Eu podia ter ajudado, apressado o processo, mas já estava com problemas suficientes e a rapariga tinha olhos atentos. Finalmente, eles conseguiram afastá-la para longe o suficiente para que os paramédicos entrassem com as macas.

Um rosto grisalho e familiar apareceu.

- Olá Edward. - Disse Brett Warner. Ele também era um enfermeiro registado, e eu conhecia-o bastante bem do hospital. Foi um golpe de sorte - a única sorte de hoje - foi ele quem chegou primeiro até nós. Nos seus pensamentos, ele estava a reparar que eu parecia alerta e calmo. - Estás bem, miúdo?

- Perfeito, Brett. Nada me tocou. Mas receio que aqui a Bella talvez tenha uma concussão. Ela bateu mesmo bem com a cabeça quando a desviei…

Brett virou a sua atenção para a rapariga, que me lançou um olhar traído. Ah, pois era. Ela era o tipo de mártir calado - preferia sofrer em silêncio.

Mas ela não contradisse a minha história imediatamente, e isso deixou-me melhor.

O paramédico seguinte tentou insistir que eu me deixasse ser tratado, mas não foi muito difícil desencorajá-lo. Prometi que ia deixar o meu pai examinar-me, e ele desistiu. Com a maioria dos humanos, falar com confiança era necessário. Com a maioria dos humanos, menos a rapariga, é claro. Será que ela se encaixava em algum padrão?

Quando lhe puseram o colar cervical no pescoço – e o seu rosto ficou vermelho com vergonha - usei a distracção para arranjar silenciosamente a forma do amassado no carro acastanhado com o meu pé. Só os meus irmãos é que repararam no que eu estava a fazer, e ouvi a promessa mental de Emmett que arranjava o que me tivesse escapado.

Agradecido pela ajuda dele – e ainda mais agradecido por Emmett, pelo menos, já ter perdoado a minha escolha perigosa - fiquei mais relaxado quando subi para banco da frente da ambulância ao lado de Brett.

O chefe de polícia chegou antes que tivesse colocado Bella no fundo da ambulância.

Embora os pensamentos do pai de Bella estivessem além das palavras, o pânico e a preocupação que emanavam da mente do homem destacavam-se das mentes nos arredores. Ansiedade e culpa sem palavras, muito dos dois sentimentos passaram por ele quando viu a sua única filha na maca.

Passaram por ele e passaram para mim, ecoando e ficando mais fortes. Quando a Alice me tinha avisado que matar a filha de Charlie Swan iria matá-lo também, ela não estava a exagerar.

A minha cabeça curvou-se com culpa enquanto ouvia a sua voz em pânico.

- Bella! - Gritou.

- Está absolutamente tudo bem comigo, Char… pai. - Suspirou. - Não há nada de errado comigo.

A garantia dela não acalmou o terror dele. Ele virou-se para o paramédico mais perto e pediu mais informação.

Não foi até eu o ter ouvido falar, formando frases perfeitamente coerentes tirando o seu pânico que eu percebi que a ansiedade e preocupação dele não eram além das palavras. Eu apenas… não conseguia ouvir as palavras exactas.

Hum. Charlie Swan não era tão silencioso como a filha, mas eu conseguia ver de onde ela tinha herdado. Interessante.

Nunca tinha passado muito tempo á volta do chefe de polícia da cidade. Considerei-o sempre um homem de raciocínio lento - e agora percebi que eu é que era lento. Os pensamentos dele eram parcialmente ocultos, não ausentes. Eu só conseguia ouvir o carácter deles, o tom…

Queria ouvir com mais atenção, ver se conseguia encontrar naquela nova pequena peça a chave para os segredos da rapariga. Mas a Bella foi posta na parte traseira da ambulância, e a ambulância estava a seguir o seu caminho.

Era difícil desviar-me daquela possível solução para o mistério que me tinha deixado obcecado. Mas eu tinha que pensar agora - ver o que tinha sido feito hoje de cada ângulo. Eu tinha que ouvir, ter a certeza de que não nos tinha colocado a todos em tanto perigo que teríamos de partir imediatamente. Tinha que me concentrar.

Não havia nada nos pensamentos dos paramédicos para me preocupar. Até onde eles sabiam, não havia nada de errado com a rapariga. E a Bella estava a manter a história que eu tinha contado, até agora.

A prioridade, quando chegámos ao hospital, era ver Carlisle. Corri pelas portas automáticas, mas fui incapaz de abrir mão de assistir a Bella. Continuei a prestar atenção através dos pensamentos dos paramédicos.

Foi fácil encontrar a mente familiar do meu pai. Ele estava no seu escritório pequeno, sozinho - o segundo golpe de sorte deste dia azarado.

- Carlisle.

Ele ouviu-me aproximar, e ficou alarmado assim que viu a minha cara. Ficou em pé, pálido como um fantasma. Inclinou-se para a frente da mesa de nogueira organizada.

Edward, tu não…

- Não, não, não é isso.

Ele respirou fundo. Claro que não. Desculpa por ter pensado nisso. Os teus olhos, claro, eu devia percebido… Ele reparou que os meus olhos ainda eram dourados com alívio.

- Mas ela está magoada, Carlisle, provavelmente não é grave, mas…

- O que é que aconteceu?

- Um acidente de carro estúpido. Ela estava no lugar errado à hora errada. Mas eu não podia ficar lá parado, deixar que fosse atropelada…

Começa de novo, não estou a perceber. Como é que estás envolvido nisso?

- Uma carrinha derrapou no gelo. - Sussurrei. Olhei para a parede atrás dele enquanto falava. Em vez de estar coberta com diplomas, ele só tinha uma pintura a óleo, uma das suas favoritas, um Hassam não descoberto. - Ela estava no caminho da carrinha. A Alice viu aquilo acontecer, mas não havia tempo para fazer nada senão correr pelo estacionamento e tirá-la da frente. Ninguém reparou… excepto ela. Eu tive que parar a carrinha também, mas de novo, ninguém viu… a não ser ela. Eu… lamento imenso, Carlisle. Não nos queria colocar em perigo.

Ele deu a volta à mesa e pôs a mão no meu ombro.

Fizeste a coisa certa. Não deve ter sido fácil para ti. Estou orgulhoso, Edward.

Olhei-o nos olhos. - Ela sabe que se passa alguma coisa… de errado comigo.

- Isso não importa. Se tivermos que ir embora, iremos. O que é que ela disse?

Abanei a cabeça, um pouco frustrado. - Nada, ainda.

Ainda?

- Ela concordou com a minha versão dos eventos… mas está à espera de uma explicação.

Ele franziu a testa, a pensar.

- Ela bateu com a cabeça. Bom, eu fiz isso. - Continuei rapidamente. – Atirei-a contra o chão com bastante força. Ela parece bem, mas… Acho que não será difícil desacreditá-la.

Senti-me horrível só de dizer as palavras.

Carlisle ouviu o desgosto na minha voz. Talvez isso não seja necessário. Vamos ver o que acontece, está bem? Parece que tenho uma paciente para ir ver.

- Por favor. – Disse-lhe. – Estou tão preocupado que a tenha magoado.

A expressão de Carlisle aliviou-se. Ele passou o dedo pelo cabelo, só alguns tons mais claro que os seus olhos dourados, e riu-se.

Tem sido um dia interessante para ti, não tem? Na sua mente, eu conseguia ver a ironia, e era engraçada, para ele, pelo menos. Uma inversão de papéis. Durante aquele momento curto e inconsciente em que corri pelo parque de estacionamento congelado, eu tinha passado de assassino a protector.

Ri-me com ele, lembrando-me da certeza que tive de que Bella nunca precisaria de protecção de nada além de mim mesmo. O meu riso tinha um tom irritado porque, apesar da carrinha, isso ainda era verdade.

Esperei no escritório de Carlisle, uma das horas mais compridas que já vivi, enquanto ouvia o hospital cheio de pensamentos.

Tyler Crowley, o motorista da carrinha, parecia estar mais magoado que Bella, e a atenção voltou-se para ele enquanto ela esperava a sua vez de fazer um raio-X. Carlisle ficou no fundo, confiando no diagnóstico dos residentes de que a rapariga só estava levemente magoada. Isso deixou-me ansioso, mas sabia que ele tinha razão. Uma espreitadela ao rosto dele e ela ia imediatamente lembrar-se de mim, do facto que havia algo de errado com a minha família, e talvez isso a fizesse dizer algo.

Ela tinha de certeza um parceiro disposto o suficiente para conversar. Tyler estava consumido por culpa com o facto de a ter quase matado, e não conseguia parar de falar sobre isso. Eu conseguia ver a expressão dela através dos olhos dele, e era óbvio que ela queria que ele parasse. Como é que ele não via aquilo?

Houve um momento tenso para mim quando Tyler perguntou como é que ela tinha saído da frente da carrinha.

Eu esperei, sem respirar, enquanto ela hesitou.

- Hum… - ele ouviu-a dizer. Então ela fez uma pausa tão longa que Tyler se perguntou se a sua pergunta a tinha confundido. Finalmente, ela continuou. - O Edward puxou-me e afastou-me da trajectória da carrinha.

Expirei. E depois a minha respiração acelerou. Eu nunca a tinha ouvido dizer o meu nome antes. Gostei do som, mesmo só estando a ouvir pelos pensamentos de Tyler. Queria ouvir com meus próprios ouvidos…

- Edward Cullen. - Disse, quando Tyler não entendeu de quem é que ela tinha falado. Dei por mim à porta, de mão na maçaneta. O desejo de a ver estava a ficar mais forte. Tive que me lembrar para ter cuidado.

- Estava junto a mim.

- Cullen? - Hum. Que estranho. - Não o vi… - Podia ter jurado… - Ena, suponho que tudo aconteceu muito rapidamente. Ele está bem?

- Julgo que sim. Está algures por aqui, mas não o obrigaram a usar uma maca.

Vi o olhar pensativo na cara dela, a suspeita a ficar mais forte nos seus olhos, mas essas pequenas mudanças de expressão foram perdidas pelo Tyler.

Ela é bonita. Estava ele a pensar, quase surpreendido. Mesmo nesta trapalhada. Não faz o meu tipo, mas… devia convidá-la para sair. Compensar por hoje…

Já estava no corredor, a meio caminho da sala de emergência, sem pensar por um segundo no que estava a fazer.

Por sorte, a enfermeira entrou na sala antes de mim, era a vez de Bella ir fazer o raio-X. Encostei-me à parede num canto escuro e tentei controlar-me enquanto ela era levada para longe.

Não importava que Tyler pensasse que ela era bonita. Qualquer um ia notar isso. Não havia razão para me sentir… Como é que eu me sentia? Aborrecido? Ou furioso estava mais perto da verdade? Isso não fazia sentido nenhum.

Fiquei onde estava o máximo de tempo que pude, mas a impaciência venceu-me e dei meia volta para sala de radiologia. Ela já tinha sido levada de volta para o serviço de urgências, mas eu podia dar uma olhadela nos seus raio-X enquanto a enfermeira não voltava.

Senti-me mais calmo quando vi. A sua cabeça estava bem. Eu não a tinha magoado, não exactamente.

Carlisle apanhou-me lá.

Pareces melhor. - Comentou.

Eu apenas olhei para a frente. Nós não estávamos sozinhos, os corredores cheios de médicos e visitantes.

Ah, sim. Ele prendeu o raio-X no quadro iluminado, mas eu não precisava de olhar uma segunda vez. Estou a ver. Ela está absolutamente bem. Muito bem, Edward.

O som da aprovação do meu pai criou uma reacção mista em mim. Eu teria ficado contente, excepto que eu sabia que ele não aprovaria o que eu ia fazer agora. Pelo menos, não aprovaria se soubesse das minhas reais motivações…

- Eu acho que vou conversar com ela, depois de te ver. - Suspirei. - Agir naturalmente, como se nada tivesse acontecido. Acalmar os ânimos. - Todas razões aceitáveis.

Carlisle acenou ausente, ainda a olhar para o seu raio-X. - Boa ideia. Hum...

Olhei para ver o que é que o tinha interessado.

Olha para todas as contusões cicatrizadas! Quantas vezes será que a mãe dela a deixou cair?

O Carlisle sorriu para si mesmo pela sua brincadeira.

- Eu estou a começar a achar que esta rapariga tem apenas má sorte. Sempre no lugar errado na hora errada.

Forks é certamente o lugar errado para ela, contigo aqui.

Estremeci.

Vai em frente. Acalma as coisas. Juntar-me-ei a ti dentro de momentos.

Saí rapidamente, sentindo-me culpado. Talvez eu fosse um mentiroso muito bom, se conseguia enganar Carlisle.

Quando cheguei ao serviço de urgências, o Tyler estava a resmungar sob a sua respiração, ainda a desculpar-se. A rapariga estava a tentar escapar do remorso dele tentando dormir. Os olhos dela estavam fechados, mas a sua respiração não estava contínua, e por uma vez e por outra os dedos dela torciam-se impacientemente.

Olhei para a cara dela por um longo tempo. Esta era a última vez que eu a ia ver. Isso disparou uma dor aguda no meu peito. Seria porque eu odiava deixar qualquer quebra-cabeças sem solução? Isso não parecia ser uma explicação suficiente.

Finalmente, respirei fundo e fiquei à vista.

Quando o Tyler me viu, começou a falar, mas eu pus um dedo nos meus lábios.

- Ela está a dormir? - Murmurei.

Os olhos de Bella abriram-se rapidamente e focaram-se na minha cara. Arregalaram-se por um momento, e depois ficaram estreitos com raiva ou suspeita. Lembrei-me que tinha um papel para desempenhar, então sorri-lhe como se nada incomum tivesse acontecido esta manhã - apenas uma pancada na cabeça e um pouco de imaginação livre.

“Eh, Edward,” Tyler disse. “Eu lamento profundamente…”

Levantei uma mão para parar com as suas desculpas. “Não havendo sangue, não há problema” Disse-lhe com humor. Sem pensar, sorri demasiado largamente por causa da minha brincadeira particular.

Era incrivelmente fácil ignorar Tyler, deitado não mais que 1.20m de mim, coberto de sangue fresco. Nunca tinha entendido como é que Carlisle era capaz de fazer aquilo, ignorar o sangue de seus pacientes para cuidar deles. Não seria a constante tentação demasiado perigosa…? Mas, agora… Eu conseguia ver como, se estivesses a concentrar-me nalguma coisa com força o suficiente, a tentação não era nada de especial.

Apesar de fresco e exposto, o sangue de Tyler não tinha nada a ver com o de Bella.

Eu mantive a minha distância dela, sentando-me aos pés do colchão de Tyler.

“Então, qual é o veredicto?” Perguntei-lhe.

Ela lamentou-se. “Não há absolutamente nada de errado comigo, mas não me deixam ir embora. Como é que não estás amarrado a uma maca como nós?”

A sua impaciência fez-me sorrir novamente.

Conseguia ouvir o Carlisle no corredor agora.

“Tudo depende dos nossos conhecimentos” Disse suavemente. “Mas não te preocupes, vim libertar-te.”

Assisti à sua reacção cuidadosamente enquanto o meu pai entrava na sala. Os olhos dela arregalaram-se e sua boca abriu-se mesmo com a surpresa. Gemi internamente. Sim, ela tinha certamente notado a semelhança.

“Então, menina Swan, como se sente?” Carlisle perguntou. Ele tinha uma maneira maravilhosamente calma que deixava a maioria dos pacientes bem em poucos momentos. Não conseguia saber como é que afectou a Bella.

“Estou óptima” - Disse calmamente.

O Carlisle fixou os seus raio-X no painel de luz acima da cama. “As suas radiografias parecem estar bem. Dói-lhe a cabeça? O Edward comentou que bateu com a cabeça com bastante violência.”

Ela suspirou, e disse “A minha cabeça está óptima” novamente, mas desta vez a impaciência notou-se na sua voz. Depois olhou de relance na minha direcção.

Carlisle aproximou-se dela e passou os seus dedos levemente pelo seu crânio até que encontrou o galo de baixo do cabelo.

Eu fui apanhado de surpresa pela onda de emoção que passou por mim.

Eu tinha visto o Carlisle a trabalhar com humanos milhares de vezes. Anos atrás, eu até o tinha ajudado informalmente - embora apenas em situações em que o sangue não estava envolvido. Portanto não era uma coisa nova para mim, assisti-lo a interagir com a rapariga como se fosse tão humano quanto ela. Eu tinha invejado o controlo dele tantas vezes, mas não era o mesmo que esta emoção. Eu invejei mais do que o seu controlo. Sofri pela diferença entre mim e o Carlisle, que ele pudesse tocá-la tão gentilmente, sem medo, sabendo que nunca a iria magoar…

Ela estremeceu, e eu mexi-me no meu assento. Tive que me concentrar por um momento para manter minha a postura relaxada.

“Está dorido?” Carlisle perguntou.

O seu queixo levantou-se um bocado. “Nem por isso” Disse.

Outro pequeno pedaço de sua personalidade encaixou-se: ela era corajosa. Não gostava de mostrar fraqueza.

Possivelmente a criatura mais vulnerável que eu já tinha visto, e não quer parecer fraca. Um riso abafado escorregou através de meus lábios.

Ela olhou-me novamente.

“Bem,” O Carlisle disse. “O seu pai está na sala de espera, já pode ir com ele para casa. Mas volte cá se sentir tonturas ou se tiver qualquer problema de visão.”

O pai dela estava aqui? Varri os pensamentos da sala de espera cheia, mas não conseguia distinguir a sua voz mental do grupo antes de ela ter falado outra vez, a sua cara ansiosa

- Não posso voltar para a escola?

- Talvez devesse repousar por hoje. - O Carlisle sugeriu.

Os olhos dela voltaram-se para mim. - E ele, pode ir para a escola?

Agir normalmente… acalmar as coisas… esquecer a sensação que tenho quando ela me olha nos olhos…

- Alguém tem de espalhar a boa notícia de que nós sobrevivemos. - Disse.

- Na verdade - O Carlisle corrigiu - a maior parte da escola parece estar na sala de espera.

Eu antecipei a reacção dela desta vez, a sua aversão à atenção. Ela não me desapontou.

- Oh, não – Lamentou-se e colocou as mãos no rosto.

Gostei que finalmente tivesse acertado numa coisa. Estava a começar a entendê-la…

- Quer ficar? – Perguntou o Carlisle.

- Não, não! - Disse rapidamente, girando as pernas sob o colchão e escorregando para ficar de pé. Tropeçou, sem equilíbrio, nos braços de Carlisle. Ele agarrou-a e equilibrou-a.

Novamente, a inveja inundou-me.

- Estou óptima. - Disse ela antes que ele pudesse comentar, um rosa claro estava nas suas bochechas.

Claro, aquilo não incomodaria Carlisle. Ele certificou-se que ela estava equilibrada e soltou as suas mãos.

- Tome Tylenol para as dores. – Deu instruções.

- Não dói assim tanto.

O Carlisle sorriu e assinou a ficha dela. - Parece que teve imensa sorte.

Ela virou ligeiramente o rosto, para me encarar com um olhar duro. – Tive a sorte de o Edward se encontrar junto a mim.

- Oh, bem, sim. - Carlisle concordou depressa, ouvindo a mesma coisa na voz dela que eu ouvi. Ela não tinha pensado que as suas suspeitas eram imaginação. Ainda não.

Toda tua. Pensou o Carlisle. Trata do assunto como achares melhor.

- Muito obrigado. - Sussurrei, rápido e baixo. Nenhum humano me ouviu. Os lábios de Carlisle viraram-se um pouco para cima por causa do meu sarcasmo enquanto se virava para Tyler. – Receio que o Tyler tenha de nos fazer companhia apenas durante mais algum tempo. - Disse quando começou a examinar os cortes deixados pelo vidro partido.

Bom, eu tinha feito os estragos, então era justo que eu tivesse que lidar com eles.

Bella andou deliberadamente na minha direcção, sem parar até que estivesse desconfortavelmente perto. Lembrei-me de como tinha desejado, antes de todos os estragos, que ela se aproximasse de mim… Isto era como gozar com aquele desejo.

- Posso falar contigo por um instante? – Murmurou baixinho, desagradada.

A sua respiração quente tocou-me na cara e eu tive que dar um passo para trás. A sua atracção não tinha diminuído nem um bocado. Sempre que ela estava perto de mim, despertava o pior de mim, os instintos urgentes. O veneno inundou a minha boca e o meu corpo ansiou para atacar, para puxá-la para os meus braços e despedaçar a sua garganta nos meus dentes.

A minha mente era mais forte que o meu corpo, mas só um pouco.

- O teu pai está à tua espera. – Lembrei-a, com os dentes cerrados.

Ela olhou para o Carlisle e Tyler. O Tyler não estava a prestar nem um pouco de atenção, mas o Carlisle estava a monitorizar cada respiração que eu dava.

Cuidado, Edward.

- Gostava de falar contigo a sós, se não te importares. - Insistiu com uma voz baixa.

Eu gostava de dizer que me importava muito, mas sabia que ia ter que fazer isto eventualmente. O melhor era acabar com isto de uma vez.

Estava cheio de tantas emoções em conflito enquanto saía do quarto, a ouvi-la tropeçar nos seus próprios pés atrás de mim, a tentar acompanhar-me.

Tinha um espectáculo para apresentar. Sabia o papel que ia desempenhar, já tinha escolhido a personagem. Ia ser o vilão. Ia mentir, ridicularizar e ser cruel.

Ia contra todos os meus melhores impulsos, os impulsos humanos aos quais me tinha agarrado todos estes anos. Nunca tinha querido ser merecedor de confiança tanto quanto queria neste momento, quando tinha que destruir qualquer possibilidade que isso acontecesse.

Piorou saber que esta ia ser a última memória que ela ia ter de mim. Esta era a cena de despedida.

Virei-me para ela.

- O que queres? - Perguntei friamente.

Ela contraiu-se um bocado com a minha hostilidade. Os seus olhos ficaram confusos, a expressão que me tinha assombrado…

- Deves-me uma explicação. - Disse numa uma voz fraca; o seu rosto de marfim empalideceu.

Foi muito difícil manter minha voz dura. – Salvei-te a vida, não te devo nada.

Ela recuou. Queimou como ácido ver que as minhas palavras a tinham magoado.

- Tu prometeste. - Sussurrou.

- Bella, bateste com a cabeça, não sabes o que estás a dizer.

O queixo dela levantou-se. - Não há nada de errado com a minha cabeça.

Agora ela estava irritada, e isso tornou as coisas mais fáceis para mim. Encontrei o seu olhar, e deixei o meu rosto menos amigável.

- O que queres de mim, Bella?

- Quero saber a verdade. Quero saber por que motivo estou a mentir por tua causa.

O que ela queria era justo, frustrou-me ter que lhe negar isso.

- O que julgas que aconteceu? – Quase lhe rosnei.

As suas próximas palavras vieram numa corrente. – Sei apenas que não estavas próximo de mim, o Tyler também não te viu, portanto, não me venhas dizer que bati com a cabeça com demasiada violência. Aquela carrinha ia esmagar-nos a ambos, tal não se verificou e as tuas mãos deixaram uma mossa no outro carro e não tens qualquer ferimento. A carrinha ter-me-ia esmagado as pernas, mas tu estavas a erguê-la no ar… - De repente, ela trincou os dentes e os seus olhos estavam a brilhar com lágrimas não derramadas.

Eu encarei-a, a minha expressão era de escárnio, embora o que sentisse mesmo era medo; ela tinha realmente visto tudo.

- Pensas que eu levantei uma carrinha de cima de ti? - Perguntei sarcasticamente.

Ela respondeu com um aceno rápido.

A minha voz ficou ainda mais irónica. – Ninguém vai acreditar nisso, sabes?

Ela lutou para controlar a raiva. Quando me respondeu, disse cada palavra devagar. - Eu não vou contar a ninguém.

Ela estava a dizer a verdade. Eu conseguia ver isso nos olhos dela. Mesmo furiosos e traídos, ela ia guardar o meu segredo.

Porquê?

O choque daquilo arruinou a minha expressão cuidadosamente projectada durante meio segundo, e recompus-me num instante.

- Então, que importância é que isso tem? - Perguntei, trabalhando para manter a minha voz severa.

- Para mim tem. – Disse, intensa. - Não gosto de mentir, logo, é melhor que haja um excelente motivo para estar a fazê-lo.

Ela pediu-me para confiar nela. Exactamente como eu queria que ela confiasse em mim. Mas isto era uma linha que eu não podia atravessar.

A minha voz ficou ligeiramente desesperada. - Não podes apenas agradecer-me e superar isso?

- Obrigada. – Disse-me, e depois ficou à espera.

- Não vais esquecê-lo, pois não?

- Não.

- Nesse caso… - Eu não lhe podia dizer a verdade mesmo que quisesse… E eu não queria.

Eu preferia que ela inventasse a sua própria história a que soubesse o que eu era, porque nada podia ser pior que a verdade. Eu estava a viver um pesadelo, directamente das páginas de uma história de terror.

- Espero que gostes de sofrer desilusões.

Olhámos colericamente um para o outro.

Era estranho quão amável a sua raiva era. Como um gatinho furioso, macio e inofensivo, e tão ignorante quanto à sua própria invulnerabilidade.

Ela ficou rosada e cerrou os dentes outra vez. – Porque te deste sequer àquele trabalho?

A sua pergunta não era a que eu estava à espera ou preparado para responder.

Perdi as regras do jogo, do papel que estava a desempenhar. Senti a máscara a escorregar da cara, e eu disse-lhe, naquele único momento, a verdade.

- Não sei.

Memorizei o rosto dela uma última vez. Ainda tinha alguns traços de raiva, o sangue ainda não tinha saído das suas bochechas rosadas. E então virei-me e fui para longe dela.

MIDNIGHT SUN. Capítulo 4 - Visões

Eu voltei para a escola. Era a coisa certa a fazer, a maneira mais discreta de me comportar.


No final do dia, quase todos os outros alunos também tinham voltado para as aulas. Só o Tyler e Bella e alguns outros, que provavelmente estavam a usar o acidente como uma oportunidade para se baldarem às aulas, continuavam ausentes.

Não devia ser tão difícil para mim fazer a coisa certa. Mas, durante toda a tarde, estive a ranger os dentes contra o desejo que me deixava a querer baldar-me à aula também, ir procurar a rapariga outra vez.

Como um perseguidor. Um perseguidor obsessivo. Um vampiro perseguidor obsessivo.

A escola hoje estava, de alguma forma, impossivelmente ainda mais aborrecida do que tinha sido há uma semana. Aborrecimento de coma. Era como se as cores tivessem sido drenadas das paredes de tijolos, das árvores, do céu, das caras à minha volta.

Havia outra coisa certa que eu devia estar a fazer… e não estava. Claro, também era uma coisa errada. Tudo dependia da perspectiva de quem olhava.

Da perspectiva de um Cullen, não simplesmente um vampiro, mas um Cullen, alguém que pertencia a uma família, uma coisa tão rara no nosso mundo, a coisa certa a fazer-se seria algo assim:

- Estou surpreendido por te ver na aula, Edward. Eu ouvi dizer que estiveste envolvido naquele acidente horrível hoje de manhã.

- Sim, estive, Sr. Banner, mas eu fui o sortudo. - Um sorriso amigável. - Eu não me magoei de todo… gostaria de poder dizer o mesmo do Tyler e Bella.

- Como é que eles estão?

- Eu acho que o Tyler está bem… só alguns arranhões superficiais do vidro do pára-brisas. Embora não tenha a certeza quanto a Bella. - Uma cara preocupada. - Ela pode ter uma concussão. Ouvi dizer que ela esteve bastante incoerente por algum tempo, até viu coisas. Sei que os médicos estavam preocupados…

Era assim que deveria ter sido. Era aquilo que eu devia à minha família.

- Estou surpreendido por te ver na aula, Edward. Eu ouvi dizer que estiveste envolvido naquele acidente horrível hoje de manhã.

- Não me magoei. - Sem sorriso.

O Sr. Banner mudou o seu peso de um pé para o outro, desconfortável.

- Tens alguma ideia de como é que o Tyler Crowley e a Bella Swan estão? Ouvi dizer que tiveram alguns ferimentos…

Encolhi os ombros. – Não tenho como saber isso.

O Sr. Banner limpou a garganta. - Ah, certo… - Disse, enquanto o meu olhar frio deixava a voz dele um pouco tensa.

Ele andou rapidamente para a frente da sala e começou a matéria.

Era a coisa errada a fazer-se. A não ser que se olhasse de uma perspectiva mais obscura.

Só que parecia tão… tão deselegante caluniar a rapariga pelas costas, especialmente quando ela estava a provar que podia confiar nela mais do que eu podia ter sonhado. Ela não tinha dito nada para me trair, embora tivesse uma boa razão para o fazer. Eu ia traí-la quando ela não tinha feito nada a não ser guardar o meu segredo?

Tive uma conversa quase idêntica com a Sra. Goff, só que em espanhol em vez de inglês. E Emmett olhou para mim durante um longo tempo.

Espero que tenhas uma boa explicação para o que aconteceu hoje. A Rose está em pé de guerra.

Revirei os olhos sem olhar para ele.

Na verdade eu tinha criado uma explicação que parecia perfeita. Vamos supor que eu não tinha feito nada para parar a carrinha antes que ela esmagasse a rapariga… tremi com esse pensamento. Mas se ela tivesse sido atingida, se ela tivesse sido ferida e tivesse sangrado, o fluído vermelho derramado, desperdiçado no asfalto, o cheiro de sangue fresco a pulsar no ar…

Tremi de novo, mas não apenas em horror. Uma parte de mim tremeu de desejo. Não, eu não teria sido capaz de a ver sangrar sem nos expor a todos numa maneira muito mais escandalosa e chocante.

Parecia a desculpa perfeita… mas eu não a ia usar. Era vergonhosa de mais.

E eu nem sequer tinha pensado nela até um pouco depois de o facto ter ocorrido.

Cuidado com o Jasper. Continuou Emmett , alheio aos meus pensamentos. Ele não está tão nervoso… mas está mais decidido.

Eu vi o que ele quis dizer, e por um momento a sala girou à minha volta. O meu ódio era tão devorador que uma névoa vermelha encobriu a minha visão. Eu pensei que me fosse engasgar nela.

CREDO, EDWARD! CONTROLA-TE! O Emmett gritou-me na sua cabeça. A mão dele desceu para o meu ombro, segurando-me no meu lugar antes que eu pudesse saltar e ficar de pé. Ele raramente usava a sua força completa - raramente havia necessidade, porque ele era muito mais forte que qualquer outro vampiro que qualquer um de nós já tivesse encontrado - mas usou-a agora. Agarrou o meu braço, em vez de me empurrar para baixo. Se ele me estivesse a empurrar, a cadeira debaixo de mim ter-se-ia desmoronado.

CALMA! Ordenou-me.

Eu tentei acalmar-me, mas era difícil. A fúria queimava na minha cabeça.

O Jasper não vai fazer nada até que nós conversemos todos. Só achei que devias saber a direcção que ele está a tomar.

Concentrei-me em relaxar, e senti a mão do Emmett a libertar-me.

Tenta não chamares mais à atenção. Já estás com problemas suficientes da maneira que as coisas estão.

Eu respirei fundo e o Emmett soltou-me.

Procurei à volta da sala várias vezes, mas o nosso confronto tinha sido tão curto e silencioso que só algumas pessoas sentadas atrás de Emmett tinham notado. Nenhuma delas sabia o que pensar daquilo, portanto esqueceram. Os Cullens eram aberrações – já todos sabiam disso.

Raios, miúdo, estás horrível. - O Emmett acrescentou, com o seu tom simpático.

- Vai-te lixar. - Resmunguei entre dentes, e ouvi o riso baixo dele.

O Emmett não guardava rancor, e eu provavelmente devia-lhe estar agradecido pela sua natureza de fácil convívio. Mas eu conseguia ver que as intenções de Jasper faziam sentido para Emmett, que ele estava a considerar qual seria o melhor caminho a tomar.

O ódio ferveu, quase fora de controlo. Sim, o Emmett era mais forte do que eu, mas ele ainda não me tinha ganho numa luta. Ele dizia que era porque eu fazia batota, mas ouvir pensamentos era tão parte de mim como a força era dele. Nós lutávamos de igual para igual.

Uma luta? Era essa a direcção que tudo isto estava a tomar? Ia lutar contra a minha família por uma humana que mal conhecia?

Pensei sobre isso por um minuto, pensei na sensação do frágil corpo da rapariga nos meus braços contra Jasper, Rose e Emmett, sobrenaturalmente fortes e rápidos, máquinas de matar por natureza…

Sim, eu ia lutar por ela. Contra a minha família. E tremi.

Mas não era justo deixá-la desprotegida quando fui eu quem a colocou em perigo.

Mas eu não ia conseguir ganhar sozinho, não contra eles os três, e perguntei-me quais seriam os meus aliados.

Carlisle, certamente. Ele não iria lutar contra ninguém, mas ia ser contra os planos de Rose e Jasper. Talvez isso fosse tudo o que eu precisasse. Ia ver…

Esme, duvido. Ela também não iria ficar contra mim, e ela iria detestar discordar de Carlisle, mas ia ser a favor de qualquer plano que mantivesse a sua família unida. A sua prioridade não eram as regras, mas sim eu. Se Carlisle era a alma da família, Esme era o coração. Ele deu-nos um líder que merecia ser acompanhado, ela transformou isso num acto de amor. Todos nós nos amávamos, mesmo por baixo da fúria que eu sentia por Jasper e Rose neste momento, mesmo a planear lutar contra eles para salvar a rapariga, eu sabia que os amava.

Alice… não fazia ideia. Provavelmente ia depender do que ela visse que estava a chegar. Ela ficaria do lado do vencedor, imaginei.

Então eu tinha que fazer isto sem ajuda. Sozinho, eu não era um grande desafio para eles, mas eu não ia deixar que a rapariga fosse magoada por minha culpa. Isto talvez exigisse uma acção evasiva…

A minha raiva diminuiu um pouco com o súbito humor negro. Conseguia imaginar como é que ela iria reagir se eu a raptasse. É claro, eu raramente adivinhava as suas reacções, mas que outra reacção é que ela poderia ter além de terror?

Mas não tinha bem a certeza de como lidar com aquilo - raptá-la. Não seria capaz de ficar perto dela por muito tempo. Talvez eu só a devolvesse à mãe. Mesmo isso seria repleto de perigo. Para ela.

E também para mim, percebi de repente. Se eu a matasse por acidente… eu não tinha a certeza de quanta dor é que isso me iria causar, mas sabia que seria intensa e em várias formas.

O tempo passou rapidamente enquanto meditava sobre todas as complicações à minha frente: a discussão que me esperava em casa, o conflito com a minha família, a distância que eu seria forçado a percorrer depois de tudo…

Bem, eu já não me podia queixar que a vida fora da escola era monótona. A rapariga tinha mudado isso.

O Emmett e eu andámos silenciosamente para o carro quando a campainha tocou. Ele estava preocupado comigo, e preocupado com Rosalie. Ele sabia que lado teria que escolher numa disputa, e isso incomodava-o.

Os outros estavam à nossa espera no carro, também silenciosos. Éramos um grupo bastante quieto. Só eu conseguia ouvir a gritaria.

Idiota! Lunático! Imbecil! Estúpido! Egoísta, tolo irresponsável! A Rosalie mantinha uma linha constante de insultos a plenos pulmões. Tornou-se difícil ouvir os outros, mas eu ignorei-a o melhor que eu pude.

O Emmett tinha razão quanto a Jasper. Ele estava seguro do seu plano.

A Alice estava transtornada, preocupada com Jasper, passando por imagens do futuro. Não importava por qual direcção o Jasper chegava à rapariga, a Alice via-me sempre lá, a impedi-lo. Interessante… nem Rosalie ou Emmett estavam com ele nessas visões. Então Jasper planeava trabalhar sozinho. Isso ia deixar as coisas equilibradas.

Jasper era o melhor lutador, certamente o mais experiente entre nós: a minha única vantagem consistia no facto de que eu podia ouvir os seus movimentos antes que ele os fizesse.

Eu nunca tinha lutado mais do que por brincadeira com o Emmett ou Jasper - só como passatempo. Senti-me enjoado com o pensamento de tentar realmente magoar o Jasper…

Não, isso não. Só impedi-lo. Isso era tudo.

Eu concentrei-me na Alice, memorizando as diferentes formas de ataque de Jasper.

Quando fiz isso, as visões dela mudaram, afastando-se mais e mais da casa dos Swan. Eu estava a impedi-lo antes…

Pára com isso Edward! Não pode acontecer dessa maneira. Eu não vou deixar.

Eu não respondi, só continuei a ver.

Ela começou a olhar mais para a frente, para o campo nebulado e incerto de possibilidades distantes. Era tudo sombrio e vago.

No caminho inteiro para casa, a atmosfera silenciosa não cedeu. Estacionei na grande garagem perto de casa; o Mercedes de Carlisle estava ali, perto do Jipe enorme de Emmett, o M3 de Rosalie e meu Vanquish. Fiquei contente por Carlisle já estar em casa - o silêncio ia terminar de forma explosiva, e eu queria que ele estivesse por perto quando isso acontecesse.

Fomos directos para a sala de jantar.

A sala nunca era, é claro, usada para o propósito para o qual fora construída. Mas era mobilada com uma longa mesa oval de mogno cercada por cadeiras - éramos cuidadosos em ter os acessórios para fingir. O Carlisle gostava de usá-la como uma sala de conferência. Num grupo com tantas personalidades fortes e distintas, às vezes era necessário discutir as coisas sentados, de uma forma calma.

Eu tinha um pressentimento de que sentar não iria ajudar em muita coisa hoje.

O Carlisle sentou-se no lugar habitual na ponta leste da mesa. A Esme estava ao lado dele - deram as mãos em cima da mesa.

Os olhos de Esme estavam em mim, as profundezas douradas deles, cheias de preocupação.

Fica. Foi o seu único pensamento.

Eu queria conseguir sorrir para a mulher que era verdadeiramente uma mãe para mim, mas eu não tinha como assegurá-la disso agora.

Sentei-me do outro lado de Carlisle. A Esme virou-se à volta dele para colocar a sua mão livre no meu ombro. Ela não fazia ideia do que estava prestes a começar, só estava preocupada comigo.

O Carlisle tinha uma noção melhor do que estava a chegar. Os seus lábios estavam apertados com força e a testa estava enrugada. A expressão era muito velha para o rosto jovem dele.

Quando todos os outros estavam sentados, eu consegui ver as linhas a serem desenhadas.

A Rosalie sentou-se directamente à frente de Carlisle, na outra ponta da grande mesa. Ela olhou-me fixamente, nunca desviando o olhar.

O Emmett sentou-se ao lado dela, com o seu rosto e mente amargos.

O Jasper hesitou, então ficou de pé contra a parede atrás de Rosalie. Ele estava decidido, não importava o resultado desta discussão. Os meus dentes rangeram-se.

A Alice foi a última chegar, e os seus olhos estavam concentrados nalguma coisa muito longe - o futuro, ainda muito incerto para que ela fizesse uso dele. Sem parecer pensar ela sentou-se perto de Esme. Ela esfregou a testa como se tivesse uma dor de cabeça. O Jasper contorceu-se com preocupado e considerou juntar-se a ela, mas manteve a sua posição.

Respirei fundo. Eu tinha começado isto, devia falar primeiro.

- Desculpem. - Disse, a olhar primeiro para Rosalie, depois para Jasper e então Emmett. - Eu não tive nenhuma intenção de colocar nenhum de vocês em perigo. Não pensei, e eu assumo a responsabilidade total pelo meu acto precipitado.

Rosalie olhou para mim malignamente. - O que é que queres dizer, ‘assumes a responsabilidade’? Vais consertar isto?

- Não da maneira que tu queres dizer. - Disse, a tentar manter a minha voz calma e equilibrada. - Estou disposto a ir embora agora, se isso deixar as coisas melhores. - Se eu acreditar que a rapariga ficará segura, se eu acreditar que nenhum de vocês irá tocá-la, emendei na minha cabeça.

- Não. - Esme murmurou. - Não, Edward.

Toquei-lhe na mão. - São só alguns anos.

- A Esme tem razão. - O Emmett disse. - Tu não podes ir para lugar nenhum agora. Isso seria o oposto de útil. Nós temos que saber o que as pessoas estão a pensar agora mais do que nunca.

- A Alice vai apanhar o que houver de grave. - Discordei.

O Carlisle abanou a cabeça. - Eu acho que o Emmett tem razão, Edward. Vai ser mais fácil a rapariga falar se tu desapareceres. Ou vamos todos, ou ninguém vai.

- Ela não vai dizer nada. - Insisti rapidamente. A Rose estava a construir uma explosão, e eu queria deixar aquele facto claro.

- Tu não conheces a mente dela. - O Carlisle lembrou-me.

- Disso eu tenho a certeza. Alice, dá-me uma ajudinha.

Alice olhou para mim com um ar zangado. - Eu não consigo ver o que vai acontecer se nós ignorarmos isto. - Olhou de relance para Rose e Jasper.

Não, ela não conseguia ver esse futuro, não quando a Rosalie e o Jasper estavam tão decididos em não ignorar o acidente.

A palma da Rosalie bateu na mesa com um barulho alto. - Não podemos permitir que a humana tenha oportunidade de dizer alguma coisa. Carlisle, tens de ver isso. Mesmo se decidirmos todos desaparecer, não é seguro deixar histórias para trás. Nós vivemos de uma maneira tão diferente do resto da nossa espécie - tu sabes que existe quem iria adorar uma desculpa para fazer acusações. Temos que ter mais cuidado do que qualquer um!

- Já deixámos rumores para trás antes. – Lembrei-a.

- Só rumores e suspeitas, Edward. Não testemunhas oculares e provas!

- Provas! - Gozei.

Mas o Jasper estava a concordar, os seus olhos estavam duros.

- Rose… - O Carlisle começou.

- Deixa-me terminar, Carlisle. Não precisa ser uma grande produção. A rapariga bateu com a cabeça hoje. Então talvez o ferimento acabe por ficar mais sério do que parecia. - A Rosalie encolheu os ombros. – Todos os mortais vão dormir com a hipótese de nunca mais acordar. Os outros iam ficar à espera que cuidássemos nós mesmos disso. Tecnicamente, esse seria o trabalho do Edward, mas isto está obviamente além dele. Tu sabes que eu me consigo controlar. Eu não iria deixar nenhuma prova para trás.

- Sim, Rosalie, nós todos sabemos a assassina eficiente que és. - Rosnei.

Ela soltou um silvo, furiosa.

- Edward, por favor. - O Carlisle disse. E depois virou-se para a Rosalie. - Rosalie, eu apoiei-te em Rochester porque senti que tinhas direito a ter justiça. Os homens que mataste tinham-te magoado monstruosamente. Esta não é a mesma situação. A rapariga Swan é uma inocente.

- Não é nada pessoal, Carlisle. - Rosalie disse entre dentes. - É para nos proteger a todos.

Houve um breve silêncio enquanto Carlisle pensava na sua resposta. Quando ele acenou a cabeça, os olhos de Rosalie brilharam. Ela devia saber melhor que aquilo. Mesmo se eu não fosse capaz de ler os pensamentos dele, eu podia ter previsto as suas próximas palavras. Carlisle nunca cedia.

- Eu sei que a tua intenção é boa, Rosalie, mas… Eu gostaria muito que a nossa família fosse digna de ser protegida. Os ocasionais… acidentes ou lapsos de controlo são uma parte lamentável de quem nós somos. - Era bastante comum ele incluir-se no plural, embora ele próprio nunca tivesse tido aquele tipo de lapso. - Assassinar uma criança sem culpa a sangue frio é outra coisa completamente diferente. Eu acredito que o risco que ela apresenta, quer ela diga alguma coisa das suas suspeitas ou não, não é nada muito grave. Se abrirmos excepções para nos protegermos, estaremos a arriscar algo muito mais importante. Nós arriscamos perder a essência de quem somos.

Controlei a minha expressão com cuidado. Não ia fazer bem nenhum sorrir agora. Ou aplaudir, como eu gostava.

A Rosalie fez uma cara zangada. - É só ser responsável.

- É ser insensível. - O Carlisle corrigiu gentilmente. – Todas as vidas são preciosas.

Rosalie suspirou pesadamente e seu lábio inferior fez um bico. Emmett bateu-lhe no ombro. - Vai ficar tudo bem, Rosalie. – Encorajou-a com uma voz baixa.



- A questão - O Carlisle continuou. - É se nos devemos mudar ou não?

- Não. - A Rosalie lamentou-se. - Acabámos de assentar. Não quero começar o segundo ano do liceu outra vez!

- Podias manter a tua idade actual, claro. - Disse Carlisle.

- E ter que me mudar ainda mais cedo?

O Carlisle encolheu ombros.

- Eu gosto disto daqui! Tem pouco sol, podemos quase ser normais.

- Bem, não precisamos de decidir agora. Podemos esperar e ver se isso se torna necessário. O Edward confia no silêncio da rapariga Swan.

A Rosalie bufou.

Mas eu já não estava preocupado com Rosalie. Conseguia ver que ela ia concordar com a decisão de Carlisle, independentemente do quanto estivesse furiosa comigo. A conversa deles tinha-se voltado para detalhes sem importância.

O Jasper continuou determinado.

Eu entendi o motivo. Antes dele e a Alice se conhecerem, ele vivia numa zona de combate, um cenário de guerra impiedoso. Ele sabia as consequências de desprezar as regras, já tinha visto os medonhos resultados com os meus próprios olhos.

Dizia muita coisa o facto de ele não ter tentando acalmar a Rosalie com seus talentos extras, ou porque não a incentivava. Ele mantinha-se neutro na discussão - acima dela.

- Jasper. – Disse-lhe.

Ele encontrou o meu olhar, o rosto dele não tinha expressão.

- Ela não vai pagar pelo meu erro. Eu não vou permitir isso.

- Vai beneficiar-se dele então? Ela devia ter morrido hoje, Edward. Eu só iria consertar as coisas.

Repeti, enfatizando cada palavra. - Eu não vou permitir.

Ele ergueu as sobrancelhas. Ele não estava à espera disto, não imaginava que eu fosse impedi-lo.

Ele abanou a cabeça uma vez. - Não vou deixar a Alice viver em perigo, mesmo que seja ligeiro. Tu não sentes por ninguém o que eu sinto por ela, Edward, e tu não viveste o que eu vivi, quer tenhas visto as minhas memórias ou não. Tu não entendes.

- Não estou a discutir isso, Jasper. Mas estou a avisar-te, não vou deixar-te magoar a Isabella Swan.

Olhámos um para o outro, não a fixar, mas sim a avaliar o oponente. Senti-o a verificar o ambiente à minha volta, testando a minha determinação.

- Jazz… - A Alice disse, interrompendo-nos.

Ele aguentou o seu olhar mais um bocado, e depois olhou para ela. - Não te incomodes a dizer-me que te consegues proteger sozinha, Alice. Eu já sei disso. Ainda assim eu tenho que…

- Não é isso que eu vou dizer. - Alice interrompeu. - Eu ia-te pedir um favor.

Vi o que estava na mente dela e a minha boca abriu-se com um choque audível. Olhei para ela, chocado, só vagamente consciente de que todos tirando a Alice e Jasper me observavam cuidadosamente.



- Eu sei que me amas. Obrigada. Mas eu gostava muito que não tentasses matar a Bella. Primeiro de tudo, o Edward está a falar a sério e eu não quero que vocês os dois lutem. Segundo, ela é minha amiga. Pelo menos, vai ser.

Estava nítido como vidro na mente dela: A Alice, a sorrir, com os seus braços gelados à volta dos ombros quentes e frágeis da rapariga. E Bella estava a sorrir também, o braço dela na cintura de Alice.

A visão era sólida como uma pedra; só o tempo é que era incerto.

- Mas, Alice… - O Jasper ofegou. Eu não conseguia virar a minha cabeça para olhar para a expressão dele. Não conseguia desviar-me da imagem na cabeça de Alice para olhar para ele.

- Eu vou adorá-la qualquer dia, Jazz. E vou ficar muito chateada contigo se não a deixares estar.

Eu ainda estava preso nos pensamentos de Alice. Vi o futuro a chegar enquanto a resolução de Jasper diminuía com o pedido inesperado dela.

- Ah… - Ela suspirou, a decisão dele tinha criado um novo futuro. - Vêem? A Bella não vai dizer nada. Não há nada para nos preocuparmos.

A maneira como ela disse o nome da rapariga… como se já fossem confidentes…

- Alice – Engasguei-me. - O que é que isto…?

- Eu disse-te que estava a aproximar-se uma mudança. Eu não sei, Edward. - Mas ela apertou o queixo e eu conseguia ver que existia mais. Ela estava a tentar não pensar nisso; de repente estava a concentrar-se muito em Jasper, embora ele estivesse demasiado espantado para fazer algum progresso com a sua decisão.

Ela fazia aquilo às vezes, quando me queria esconder alguma coisa.

- O quê, Alice? O que é que estás a esconder?

Ouvi o Emmett a resmungar. Ele ficava sempre frustrado quando a Alice e eu tínhamos aqueles tipos de conversa.

Ela abanou a cabeça, tentando manter-me fora.

- É sobre a rapariga? - Exigi. - É sobre a Bella?

Ela tinha os dentes cerrados a concentrar-se, mas quando eu disse o nome da Bella, ela teve um deslize. Só durou meio segundo, mas foi o suficiente.

- NÃO! - Gritei. Ouvi a cadeira a bater no chão e percebi que estava de pé.

- Edward! - O Carlisle levantou-se também, com o braço dele no meu ombro. Mal me apercebia dele.

- Está a solidificar. - A Alice sussurrou. - A cada minuto que passa tu estás mais decidido. Só existem duas saídas para ela agora. É uma coisa ou outra, Edward.

Eu conseguia ver o que ela via… mas não queria aceitar.

- Não. - Disse outra vez; não havia volume na minha negação. As minhas pernas ficaram bambas e precisei de me apoiar na mesa.

- Alguém por favor deixa que o resto de nós saiba o mistério? - O Emmett reclamou.

- Eu tenho que ir embora. – Sussurrei para a Alice, ignorando-o.

- Edward, nós já falamos sobre isso. - O Emmett disse alto. - Essa é a melhor maneira de fazer a rapariga falar. Além do mais, se tu fores embora, nós não vamos ter certeza se ela vai dizer alguma coisa ou não. Tu tens que ficar e lidar com isso.

- Não te vejo a ir para lugar nenhum, Edward. – Alice disse-me. – Já não sei se te consegues ir embora. - Pensa, acrescentou silenciosamente. Pensa em partir.

Eu percebi o que ela queria dizer. Sim, a ideia de nunca mais ver a rapariga era… dolorosa. Mas era também uma necessidade. Eu não conseguia aprovar nenhum dos futuros a que aparentemente eu a tinha condenado.

Não tenho certeza absoluta quanto ao Jasper, Edward. Alice continuou. Se partires, ele vai pensar que ela é um perigo para nós.

- Eu não ouço isso. – Contradisse-a, ainda apenas meio consciente da nossa plateia. O Jasper estava hesitante. Ele não faria alguma coisa que magoasse a Alice.

Não neste momento. Arriscarias a vida dela, deixá-la-ias desprotegida?

-Por que é que me estás a fazer isto? - Gemi. A minha cabeça caiu nas minhas mãos.

Eu não era o protector de Bella. Não podia ser isso. O futuro dividido da Alice não era prova suficiente disso?

Eu também a amo. Ou vou amar. Não é a mesma coisa, mas eu quero-a por perto para isso.

- Também a amas? - Sussurrei, incrédulo.

Ela suspirou. Tu és tão cego, Edward. Não consegues ver a direcção que estás a tomar? Não consegues ver onde é que já estás? É mais inevitável do que o sol nascer a leste. Vê o que eu vejo…

Eu abanei a minha cabeça, horrorizado. - Não. - Tentei bloquear as visões que ela me revelava. - Não tenho que seguir esse caminho. Eu vou-me embora. Eu vou mudar o futuro.

- Podes tentar… - Disse, a sua voz céptica.

- Ah, por favor! - Emmett aumentou o tom de voz.

- Presta atenção. - Rosalie disse-lhe. - A Alice vê-o a apaixonar-se por uma humana! Que clássico do Edward! – Fez um som de vómito.

Eu mal a ouvi.

- O quê? - O Emmett disse, surpreendido. Depois o riso dele como um rugido ecoou pela sala. - É isso o que tem acontecido? - Ele riu-se de novo. – Que má sorte, Edward.

Senti a mão dele no meu ombro, e afastei-a distraidamente. Não lhe conseguia prestar atenção.

- A apaixonar-se por uma humana? - Esme repetiu numa voz impressionada. - Pela rapariga que ele salvou hoje? A apaixonar-se por ela?

- O que é que vês, Alice? Exactamente. - O Jasper pediu.

Ela virou-se para ele. Eu continuei a olhar para a cara, tonto.

- Tudo depende se ele é forte o suficiente ou não. Ou ele a vai com as próprias mãos – Virou-se para encontrar o meu olhar outra vez – o que me ia realmente irritar, Edward, e nem digo sequer o que é que isso te faria sentir – Olhou para o Jasper novamente - Ou ela vai ser uma de nós algum dia.

Alguém engasgou-se com a surpresa, não vi quem foi.

- Isso não vai acontecer! - Estava a gritar de novo. - Nenhum dos dois!

A Alice pareceu não me ter ouvido. - Tudo depende. - Repetiu. - Talvez ele seja só forte o suficiente para não a matar, mas vai ser por pouco. Vai precisar de uma quantidade incrível de controlo. - Meditou. - Mais até do que o Carlisle tem. Talvez ele só seja forte o suficiente… A única coisa para o qual ele não é forte o suficiente é para ficar longe dela. Essa é uma causa perdida.

Não conseguia encontrar a minha voz. Ninguém parecia ser capaz de encontrar a sua. A sala ficou imóvel.

Eu olhei fixamente para a Alice, e todos olharam fixamente para mim. Conseguia ver minha a própria expressão de terror de cinco pontos de vista diferentes.

Depois de um longo momento, o Carlisle suspirou.

- Bom, isto… complica as coisas.

- Eu que o diga. - O Emmett concordou. A voz dele ainda estava perto da gargalhada. Podia contar sempre com o Emmett para encontrar a piada na destruição da minha vida.

- Mas suponho que o plano continua o mesmo. - O Carlisle disse, a ponderar. - Vamos ficar e observar. Obviamente, ninguém irá… magoar a rapariga.

Enrijeci.

- Não. - O Jasper disse calmamente. – Posso concordar com isso. Se a Alice só vê duas saídas…

- Não! - A minha voz não era um grito ou um rosnado ou um choro de desespero, mas uma combinação dos três. - Não!

Eu tinha que ir embora, ficar longe do som dos pensamentos deles - da aversão egoísta de Rosalie, do humor de Emmett, da paciência infinita de Carlisle…

Pior: a confiança de Alice. A confiança de Jasper na confiança dela.

Pior de tudo: a… alegria de Esme.

Saí da sala. A Esme tocou no meu braço quando eu passei, mas eu não respondi o gesto.

Estava a correr antes de estar fora da casa. Passei pelo rio num salto, e corri para a floresta. A chuva tinha voltado, caindo tão pesada que me ensopei em poucos segundos. Gostei da água espessa - criou uma parede entre mim e o resto do mundo. Rodeou-me, deixou-me isolado.

Corri para este, sobre e pelas montanhas, sem me desviar da linha do meu curso, até que consegui ver as luzes de Seattle do outro lado da baía. Parei antes que chegasse à fronteira da civilização.

Cercado pela chuva, sozinho, finalmente obriguei-me a ver o que tinha feito - como tinha mutilado o futuro.

Primeiro, a visão de Alice e da rapariga com seus braços à volta uma da outra - a confiança e amizade eram tão óbvias que gritavam da imagem. Os olhos castanhos expressivos da Bella não estavam confusos naquela visão, e sim cheios de segredos - nesse momento, pareciam segredos felizes. Ela não se afastou do braço frio de Alice.

O que é que aquilo significava? Quanto é que ela sabia? Naquela visão congelada do futuro, o que é que ela pensava de mim?

Então a outra imagem, tão parecida, só que colorida com horror. A Alice e Bella, os seus braços ainda à volta uma da outra na sua amizade confiável. Mas agora não havia diferença entre esses braços - os dois eram braços macios e de mármore, duros como aço. Os olhos atentos de Bella já não eram castanhos chocolate. As suas íris eram de um vermelho vívido, chocante. Os segredos neles eram inatingíveis - aceitação ou angústia? Era impossível de dizer. O rosto dela era frio e imortal.

Tremi. Eu não conseguia evitar as perguntas parecidas, mas diferentes: O que é que aquilo significava? Como é que aconteceu? E o que é que ela pensava de mim agora?

Eu podia responder àquela última. Se eu a forçasse a fazer parte desta meia vida vazia por causa da minha fraqueza e egoísmo, com certeza ela iria odiar-me.

Mas havia mais uma imagem horrorosa - pior do que qualquer outra que já tivesse retido na minha cabeça.

Os meus próprios olhos, de vermelho, intensos com o sangue humano, os olhos de um monstro. O corpo da Bella nos meus braços, branco pálido, vazio, sem vida. Era tão concreta, tão clara.

Não suportava ver aquilo. Não conseguia suportar. Tentei tirá-la da minha mente, tentei ver outra coisa, qualquer coisa. Tentei ver a expressão no rosto dela com vida que tinha obstruído a minha visão no último capítulo da minha existência. Tudo em vão.

A visão negra da Alice encheu a minha cabeça, e eu contorci-me internamente com a agonia que me causou. Enquanto isso, o monstro dentro de mim estava cheio de felicidade, eufórico com as hipóteses do seu sucesso. Deixou-me enjoado.

Aquilo não podia ser permitido. Tinha que haver uma maneira de mudar o futuro. Eu não ia deixar que as visões de Alice me dissessem o que fazer. Eu ia escolher um caminho diferente. Existia sempre uma escolha.

Tinha que existir.

MIDNIGHT SUN. Capítulo 5 - Convites

Liceu. Já não era um purgatório, agora era o puro inferno. Tormento e fogo… sim, eu tinha os dois.
Eu estava a fazer a coisa certa agora. Todos os pontos nos i’s e os traços nos t’s. Agora ninguém podia reclamar que eu estava a evitar as minhas responsabilidades .

Para deixar a Esme feliz e proteger os outros, eu fiquei em Forks. Voltei para o meu horário antigo. Cacei mais que o resto deles. Todos os dias, eu ia para a escola e fingia ser humano. Todos os dias, eu ouvia cuidadosamente qualquer coisa nova sobre os Cullens - não havia nada de novo. A rapariga não tinha dito uma palavra das suas suspeitas. Ela só repetiu a história de novo e de novo - que eu estava ao lado dela e a tinha tirado do caminho - até que os ouvintes ficaram aborrecidos e pararam de pedir mais detalhes. Não havia perigo. A minha acção precipitada não tinha magoado ninguém.

Ninguém a não ser eu próprio.

Estava determinado a mudar o futuro. Não era a coisa mais fácil de se fazer, mas não havia outra escolha com a qual eu pudesse viver.

A Alice tinha dito que eu não seria forte o suficiente para me afastar da rapariga. Eu ia provar que ela estava errada.

Eu tinha pensado que aquele primeiro dia tinha sido o mais difícil. No final , eu tinha a certeza que era esse o caso. Mas estava errado.

Eu estava amargurado, ao saber que tinha magoado a rapariga. Senti-me melhor pelo facto de que a dor dela não era nada mais do que uma picada, só uma pequena ferroada de rejeição, comparada com a minha. Bella era humana, e ela sabia que eu era mais alguma coisa, alguma coisa errada, algo assustador. Ela provavelmente sentir-se-ia mais aliviada do que magoada quando eu desviasse a minha cara para longe dela e fingisse que ela não existia.

- Olá, Edward! - Cumprimentou-me ela no meu primeiro dia de volta à aula de biologia. A voz dela estava agradável, amigável, uma volta de 180 º desde a última vez que eu falei com ela.

Porquê? O que é que esta mudança significava? Tinha-se esquecido? Decidiu que tinha imaginado todo o episódio? Seria possível que ela me tivesse perdoado por não ter cumprido a minha própria promessa?

As perguntas queimavam como a sede que me atacava sempre que eu respirava.

Só um momento para olhar nos olhos dela... Só para ver se eu conseguia encontrar lá respostas…

Não. Eu não me podia permitir a isso sequer. Não se eu fosse mudar o futuro.

Mexi o meu queixo devagar na direcção dela sem desviar o olhar da frente da sala. Acenei com a cabeça uma vez, e depois virei a minha cara para a frente…

Ela não voltou a falar comigo.

Naquela tarde, assim que a escola terminou, o meu papel também terminou, corri até Seattle como tinha feito no outro dia. Parecia que podia lidar com dor ligeiramente melhor quando passava a voar por cima do chão, a trasformar tudo à minha volta num borrão verde.

Esta corrida tornou-se o meu hábito diário.

Eu amava-a? Eu achava que não. Ainda não. Mas a visão de Alice sobre o futuro tinha ficado presa comigo, e eu conseguia ver o quão fácil teria sido apaixonar-me por Bella. Seria exactamente como uma pessoa apaixonar-se: Sem esforço. Não me permitir a amá-la era o oposto de me apaixonar - era como ser puxado de um penhasco, uma tarefa cansativa, como se eu tivesse nada mais do que uma força mortal .

Passou-se mais de um mês, e cada dia era mais difícil. Aquilo não fazia sentido para mim. Eu fiquei à espera de ultrapassar, fiquei à espera que as coisas ficassem mais fáceis. Isto devia ser o que a Alice queria dizer quando previu que eu não seria capaz de me afastar da rapariga. Ela tinha visto a escala da dor. Mas eu podia lidar com a dor.

Eu não ia destruir o futuro da Bella. Se eu estivesse destinado para a amar, então evitá-la não seria a última coisa que eu conseguisse fazer?

Mas evitá-la era quase o limite do que eu conseguia suportar. Eu podia fingir ignorá-la, e nunca olhar na direcção dela. Eu podia fingir que ela não me interessava. Mas era apenas fingimento, não era a realidade.

Eu ainda me prendia a cada respiração dela, a cada palavra que ela dizia.

Eu aglomerava os meus tormentos em quatro categorias.

Os dois primeiros eram familiares. O seu aroma e o seu silêncio. Ou, por outro lado - ia pôr a responsabilidade em mim, onde pertencia - a minha sede e a minha curiosidade.

A sede era o meu primeiro tormento. Agora era um hábito, simplesmente não respirar na aula de Biologia. Mas é claro, havia sempre excepções. Quando eu tinha de responder a uma pergunta ou algo do género, eu precisava do meu fôlego para falar. Cada vez que saboreava o ar à volta da rapariga era o mesmo que aquele primeiro dia - fogo e violência brutal e a necessidade desesperada de me libertar. Era difícil agarrar-me nem que fosse um bocado à razão ou retenção nesses momentos. E, como no primeiro dia, o monstro rugia, tão perto da superfície…

A curiosidade era dos tormentos mais constantes. A pergunta nunca saía da minha cabeça: O que é que ela está a pensar agora? Quando a ouvia a suspirar calmamente. Quando ela passava um dos dedos sobre o cabelo. Quando ela mandava os livros com mais força do que o habitual. Quando ela chegava tarde à aula. Quando ela batia o pé, impaciente, no chão. Cada movimento que eu apanhava na minha visão periférica era um mistério que me enlouquecia. Quando ela conversava com os outros alunos humanos, eu analisava todas as palavras e o seu tom. Será que ela dizia o que estava a pensar, ou pensava no que dizia? Várias vezes parecia-me como se ela estivesse a tentar dizer o que a sua audiência esperava, e isso fez-me lembrar da minha família e da nossa vida diária da ilusão. Nós éramos melhores naquilo do que ela estava a ser. A não ser que eu estivesse errado sobre aquilo, apenas a imaginar coisas. Por que é que ela havia de estar a desempenhar um papel? Ela era um deles, uma jovem adolescente.



Mike Newton era o mais surpreendente dos meus tormentos. Quem é que teria sonhado que um tão comum e aborrecido mortal podia ser tão irritante? Para ser justo, eu devia sentir alguma gratidão pelo rapaz aborrecido. Mais do que os outros, ele fazia a rapariga falar. Eu aprendi muito sobre ela através daquelas conversas. Eu ainda estava a montar a minha lista, mas contrariamente, a assistência de Mike neste projecto só me deixava mais irritado.

Eu não queria que fosse Mike o único a descobrir segredos. Eu queria fazer aquilo.

Ajudava o facto de que ele nunca percebia as pequenas revelações que ela fazia, os seus pequenos descuidos.

Ele não sabia nada sobre ela. Ele criou uma Bella na sua cabeça que não existia. Uma rapariga tão comum como ele era. Ele não tinha observado a generosidade e bravura que a distinguia dos outros humanos, ele não ouvia a anormal maturidade dos seus pensamentos falados. Ele não percebia que, quando ela falava da sua mãe, soava como um pai a falar de uma criança, em vez de ser o contrário: amorosa, indulgente, um pouco divertida, e ferozmente protectora.

Ele não ouvia a paciência na sua voz quando ela fingia ter interesse nas suas histórias mirabolantes, e não adivinhava o que havia atrás da sua paciente bondade.

Através das conversas dela com Mike, eu fui capaz de adicionar a qualidade mais importante para a minha lista, e mais reveladora de todas elas, tão simples como rara. Bella era boa. Todas as outras coisas somaram-se àquele todo - agradável, discreta, altruísta, amorosa e corajosa. Ela era boa através de tudo.

No entanto, aquelas agradáveis descobertas não me tornavam mais gentil com o rapaz. A maneira possessiva como via a Bella - como se ela fosse feita para ele – provocou-me quase tanto como o seu rude fantasiar sobre ela. Ele estava a tornar-se mais confiante em relação a ela, também, enquanto o tempo passava, já que ela parecia preferi-lo aos seus rivais - Tyler Crowley, Erick Yorkie, e até, esporadicamente, eu mesmo. Ele sentava-se rotineiramente ao lado dela na mesa, a conversar com ela, encorajado pelos seus sorrisos. Apenas sorrisos educados, disse a mim mesmo. Frequentemente, apanhava-me a imaginar, entretido, a atirá-lo contra a parede da sala… Provavelmente não o iria ferir fatalmente…

Mike não pensava muitas vezes em mim como um rival. Após o acidente, ele ficou preocupado que a Bella e eu fossemos criar laços por causa da experiência partilhada, mas obviamente tinha acontecido o oposto. Naquele tempo, ele tinha ficado incomodado que eu tivesse afastado a Bella da atenção dos seus colegas . Mas agora eu ignorava-a perfeitamente como os outros, e ele ficou complacente.

O que é que ela estava a pensar agora? Será que ela gostava de ser o centro das atenções?

E, finalmente o último dos meus tormentos, o mais doloroso: A indiferença de Bella. Como eu a ignorava, ela ignorava-me também. Ela não voltou a tentar falar comigo novamente. Provavelmente, ela nem sequer voltou a pensar em mim.

Isto podia ter-me levado à loucura, ou até mesmo mudado minha decisão para alterar o futuro, excepto que ainda olhava para mim como antes. Não tinha visto isso por mim, já que não me permitia a olhar para ela, mas a Alice avisava-nos sempre quando ela estava prestes a olhar. Os outros ainda estavam a ser cuidadosos com o conhecimento problemático da rapariga.

Acalmava um pouco a dor quando ela olhava para mim de longe de vez em quando. É claro que ela podia estar apenas a imaginar que tipo de louco é que eu era.

- A Bella vai olhar para o Edward num minuto. Pareçam normais. - A Alice disse numa terça-feira de Março, e os outros tomaram o cuidado de gesticular e mexerem-se como um humano. Ficar totalmente parado era um hábito da nossa espécie.

Prestei atenção à frequência com que ela olhava na minha direcção. Agradava-me, apesar de não dever agradar, que a frequência não diminuía conforme o tempo passava. Eu não sabia o que é que aquilo significava, mas fazia-me sentir melhor.

A Alice suspirou. Eu gostava…

- Fica fora disto, Alice. - Disse por baixo da minha respiração. - Não vai acontecer.

Ela fez um beicinho. A Alice estava ansiosa para formar a sua amizade iminente com Bella. De uma forma estranha, ela sentia falta da rapariga que nem conhecia.

Admito que és melhor do que eu pensei. Tens o teu futuro todo confuso e sem sentido outra vez. Espero que estejas feliz. - Pensou.

- Faz perfeito sentido para mim.

Ela fez um som impaciente de forma delicada.

Eu tentei ignorá-la, estava muito impaciente para conversas. Eu não estava de bom humor. Estava mais tenso do que deixava qualquer um deles ver. Só o Jasper sabia como é que eu estava, sentindo o stress ao meu redor com a sua habilidade única de sentir e influenciar o humor das pessoas à volta. Ele não entendia as razões por trás dos humores e, como tenho estado constantemente de mau humor, ele ignorava.

Hoje ia ser um dia difícil. Mais difícil que o dia anterior, era esse o padrão.

Mike Newton, o rapaz odiável com quem eu não me podia permitir a tornar rival, ia convidar Bella para um encontro.

O baile que as raparigas adoravam estava a chegar, e ele estava esperançoso que Bella o convidasse. Agora Mike estava desconfortavelmente preso, eu gostava do desconforto dele mais do que devia, porque Jessica Stanley tinha acabado de o convidar. Ele não queria dizer “sim”, porque estava à espera que Bella o convidasse (e provar que ele era o vitorioso entre os seus rivais), mas não queria dizer “não” e acabar por perder o baile. A Jessica, magoada pela sua hesitação e imaginando a razão por trás disso, estava a ter pensamentos raivosos contra Bella. Agora entendi melhor o instinto, mas só me fez ficar mais frustrado quando não podia agir.

E pensar que tinha chegado a este ponto! Eu estava totalmente fixado nos dramas de liceu que um dia tinha simplesmente ignorado.

O Mike estava a trabalhar na sua coragem enquanto caminhava com Bella até à aula de biologia. Eu ouvi a sua luta interna enquanto esperava que chegassem. O rapaz era fraco. Ele tinha esperado por este baile de propósito, com medo de mostrar o seu interesse antes que ela mostrasse uma preferência por ele. Ele não queria ficar vulnerável para uma possível rejeição, preferindo que ela desse aquele passo antes.

Cobarde.

Ele sentou-se na nossa mesa outra vez, confortável com a familiaridade, e eu imaginei o som que seu corpo faria se batesse contra a parede oposta da sala com força suficiente para partir a maioria dos seus ossos.

- Pois - Disse para a rapariga, os seus olhos no chão. - A Jessica convidou-me para o baile de primavera.

- Isso é óptimo. - Responder Bella imediatamente e com entusiasmo. Era difícil não sorrir conforme Mike se dava conta do seu tom. Ele estava à espera que ela contestasse. – Vais-te divertir imenso com a Jessica.

Ele reflectiu sobre a resposta certa. - Bem… - Hesitou, e quase desistiu. Depois voltou ao plano. - Eu disse-lhe que tinha de reflectir sobre o assunto.

- Porque farias isso? - Perguntou. O tom dela era mais de desaprovação, mas ainda tinha uma pontada de alívio também.

O que é que aquilo significava? Uma fúria inesperada fez com que as minhas mãos se fechassem até punhos.

Mike não ouviu o alívio. O rosto dele estava vermelho com o sangue - com a raiva que eu estava, aquilo parecia um convite - e olhou para o chão outra vez enquanto falava.

- Estava a perguntar-me…. Bem, se estarias a pensar convidar-me.

Bella hesitou.

Naquele momento de hesitação, eu vi o futuro mais claramente do que Alice.

Talvez ela dissesse “sim” à pergunta implícita de Mike, talvez não, mas ainda assim, algum dia ela diria sim a alguém. Ela era adorável, intrigante e os outros homens não eram indiferentes a isso. Quer ela assentasse com alguém deste grupo insalubre, ou esperasse para estar livre de Forks, o dia em que ela diria sim iria chegar.

Vi a vida dela como tinha visto antes. Faculdade, carreira…amor, casamento. Vi-a de braço dado com seu pai, vestida de branco, o a cara dela corada de felicidade conforme se movia ao som da marcha nupcial de Mendelssohn.

A dor era mais forte do que já alguma vez tinha sentido. Um humano teria que estar à beira da morte para sentir esta dor. Um humano não sobreviveria a isto.

E não só dor, mas o ódio.

A fúria também doía de uma forma física. Mesmo que este rapaz insignificante não seja aquele a quem Bella vá dizer sim, eu queria esmagar-lhe o crânio na minha mão, para deixá-lo ficar com uma amostra de como iria ficar o rapaz a que ela dissesse sim.

Eu não entendia aquela emoção. Era uma mistura de dor e raiva e desejo e desespero. Eu nunca me tinha sentido assim antes. Não conseguia pôr um nome àquilo.

- Mike, eu acho que devias aceitar o convite dela. - Disse de forma gentil.

As esperanças de Mike desapareceram. Noutras circunstâncias eu teria gostado, mas eu estava perdido no choque após a dor, e no remorso pelo que a dor e a raiva me tinham feito.

A Alice tinha razão. Eu não era forte o suficiente.

Agora, Alice devia estar a ver o futuro a contorcer-se e a revirar-se, a ficar confuso de novo. Será que isto a iria agradar?

- Já convidaste alguém? - Mike perguntou de repente. Olhou de relance para mim, suspeito pela primeira vez em semanas. Apercebi-me que nunca tinha disfarçado bem o meu interesse, a minha cabeça estava inclinada na direcção de Bella.

A raiva descontrolada nos pensamentos dele - raiva por qualquer um que ela preferisse - de repente deu um nome ao meu sentimento.

Eu estava com ciúmes.

- Não. - Disse, a achar um bocado de graça. – Nem sequer vou ao baile.

Por detrás de todo o remorso e raiva, eu senti alívio nas palavras dela. De repente eu estava a considerar os meus rivais.

- Porque não? – Perguntou Mike de uma forma quase mal-educada. Ofendia-me que ele usasse aquele tom com ela. Contive um rugido.

- Vou a Seattle nesse sábado. - Respondeu.

A curiosidade já não era tão viciante como antes, agora que estava mais concentrado em descobrir as respostas para tudo. Eu ia saber os ondes e porquês desta revelação brevemente.

O tom de Mike continuou desagradável. - Não podes ir noutro fim-de-semana?

- Lamento, mas não. - Bella foi mais brusca agora. – Não deves, portanto, fazer a Jess esperar mais. É uma falta de educação.

A preocupação dela com os sentimentos de Jessica diminuiu as chamas do meu ciúme. Aquela viagem para Seattle era claramente uma desculpa para dizer não. Será que ela recusou puramente por lealdade à amiga? Será que ela queria realmente poder dizer sim? Ou estavam os dois palpites errados? Ela estava interessada noutra pessoa?

- Sim, tens razão. - Murmurou Mike, com a moral tão baixa que eu quase senti pena dele. Quase.

Parou de olhar para ela, cortando a minha visão do rosto dela na sua mente.

Eu não ia tolerar aquilo.

Eu virei-me para ler a expressão dela por mim mesmo, pela primeira vez em mais de um mês. Foi um alívio autorizar-me a fazer isso, era como respirar depois de muito tempo debaixo de água para os humanos.

Os olhos dela estavam fechados e as mãos pressionadas de cada lado da sua cara. Os seus ombros estavam curvados para frente de forma defensiva. Balançava a cabeça suavemente, como se estivesse a tentar tirar algum pensamento da cabeça.

Frustrante. Fascinante.

A voz do Sr. Banner puxou-a daquele estado e os olhos dela abriram-se devagar. Ela olhou para mim imediatamente, talvez sentindo o meu olhar. Olhou-me directamente nos olhos com a mesma expressão perplexa que me tinha assombrado por tanto tempo.

Não senti remorso ou culpa ou raiva naquele segundo. Eu sabia que eles iriam aparecer outra vez, e apareceriam brevemente, mas por este momento eu estava a viver uma estranha excitação. Como se eu tivesse triunfado em vez de perdido.

Ela não desviou o olhar, mesmo que eu a estivesse a olhar com uma intensidade imprópria, tentando sem sucesso ler os pensamentos dela pelos seus olhos castanhos. Eles estavam cheios de perguntas em vez de respostas.

Eu conseguia ver o reflexo dos meus próprios olhos, e vi-os pretos com sede. Já tinham passado quase duas semanas desde a última vez que eu tinha caçado. Este não era o dia mais seguro para eu sucumbir a minha vontade. Mas a escuridão não pareceu assustá-la. Ela ainda não desviava o olhar, e uma leve, apelativa cor vermelha começou a aparecer na sua face.

O que é que ela estava a pensar agora?

Eu quase fiz aquela questão em voz alta, mas naquele momento, o Sr. Banner disse o meu nome. Eu ouvi a resposta certa na sua mente e olhei rapidamente na sua direcção.

Respirei rapidamente. – O ciclo de Krebs.

A sede passou na minha garganta, pondo os meus músculos mais tensos e enchendo a minha boca com veneno. Fechei os olhos, tentei-me concentrar no desejo pelo sangue dela que se enfurecia dentro de mim.

O monstro estava mais forte do que antes. O monstro estava a regozijar-se. Ele juntou-se àquele futuro que lhe dava uma hipótese de 50% no que ele desejava de uma maneira cruel.

O terceiro e incerto futuro que eu tinha tentado construir apenas por força de vontade tinha sido destruído, pelos ciúmes, acima de tudo, portanto o monstro estava cada vez mais perto de ter o seu desejo.

O remorso e a culpa queimaram-me tal como a sede, e se eu tivesse a habilidade de produzir lágrimas elas estariam a formar-se agora.

O que é que eu tinha feito?

Sabendo que a batalha já estava perdida, parecia não haver mais nenhuma razão para resistir ao que eu queria. Virei-me para olhar para Bella novamente.

Ela tinha-se escondido no próprio cabelo, mas eu conseguia ver que seu rosto estava totalmente vermelho.

O monstro gostou daquilo.

Ela não olhou para mim novamente, mas mexeu de forma nervosa numa mecha de cabelo. Os seus dedos delicados, o seu pulso delicado. Eles eram tão frágeis, parecia que até a minha respiração podia parti-los.

Não, não, não. Eu não podia fazer isto. Ela era demasiado frágil, demasiado boa pessoa, demasiado preciosa para merecer este destino. Eu não podia permitir que minha vida colidisse com a dela, que destruísse a vida dela.

Mas eu também não conseguia ficar longe dela. A Alice estava certa sobre isso.

O monstro dentro de mim manifestou-se, frustrado, conforme eu pensava.

A minha breve hora com ela passou demasiado depressa. A campainha tocou e ela começou a arrumar as coisas sem olhar para mim. Isso decepcionou-me mas eu não podia esperar o contrário. A maneira como eu a tinha tratado desde o acidente era inaceitável.

- Bella? - Disse, sem me conseguir conter. A minha força de vontade já estava despedaçada.

Ela hesitou antes de olhar para mim. Quando se virou a sua expressão estava defensiva e desconfiada.

Relembrei-me que ela tinha todo o direito de desconfiar de mim. Que devia.

Ela esperou que eu continuasse, mas eu só olhei para ela, a ler a sua expressão. Eu dava respirações superficiais em intervalos regulares, lutando contra a minha sede.

- O que foi? – Perguntou finalmente. – Já voltaste a falar comigo? - Havia um pingo de ressentimento na sua voz, como a raiva a aparecer. Isso fez-me querer sorrir.

Eu não tinha a certeza como responder à pergunta dela. Estava a falar com ela outra vez, no sentido que ela estava a perguntar?

Não. Não se conseguisse evitar. Eu ia tentar evitar.

- Não, nem por isso. – Disse-lhe.

Ela fechou os olhos, o que me frustrou. Cortou o meu melhor caminho para tentar aceder aos seus sentimentos. Respirou fundo sem abrir os olhos. O seu maxilar estava rígido.

Com olhos ainda fechados, ela falou. Certamente aquela não era a maneira normal de um humano conversar. Porque é que ela fazia aquilo?

- Então, o que queres, Edward?

O som do meu nome nos lábios dela fez coisas estranhas ao meu corpo. Se o meu coração batesse, estaria a acelerar.

Mas como responder-lhe?

Com a verdade, decidi. Seria o mais sincero que pudesse com ela a partir de agora. Eu não queria merecer a sua desconfiança, mesmo que ganhar a sua confiança fosse impossível.

- Desculpa. - Disse-lhe. Aquilo era mais verdade do que ela iria alguma vez saber. Infelizmente, a única maneira segura de me desculpar era do trivial. – Eu sei que estou a ser muito indelicado, mas é melhor assim, a sério.

Seria melhor para ela se eu continuasse a ser indelicado. Será que eu iria conseguir?

Os olhos dela abriram-se, a sua expressão ainda estava cautelosa.

- Não sei a que te referes.

Eu tentei avisá-la o mais que me fosse possível. – É melhor que não sejamos amigos. – Certamente que ela conseguia sentir aquilo. Ela era uma rapariga inteligente. - Confia em mim.

Os olhos dela ficaram mais estreitos e eu lembrei-me que já lhe tinha dito aquelas palavras antes, mesmo antes de quebrar a promessa. Estremeci quando ela cerrou os dentes. Claramente ela também se tinha lembrado.

- É pena que não tenhas percebido isso antes. - Ela disse zangada. – Terias evitado todo esse arrependimento.

Olhei para ela em choque. O que é que ela sabia dos meus arrependimentos?

- Arrependimento? Arrependimento em relação a quê? - Exigi.

- Em relação ao facto de não teres simplesmente deixado que o raio daquela carrinha me tivesse esmagado. - Respondeu bruscamente.

Eu congelei, surpreendido.

Como é que ela podia pensar aquilo? Salvar a sua vida tinha sido a única coisa certa que eu tinha feito desde que a conheci. A única coisa de que não me envergonhava. A única coisa que me deixava feliz em existir. Lutei para a manter viva desde o primeiro momento em que senti o seu cheiro. Como é que ela podia pensar aquilo de mim? Como é que se atrevia a questionar a minha única boa acção nesta confusão toda?

- Julgas que eu me arrependo de te ter salvo a vida?

- Eu sei que te arrependes de tê-lo feito.

A avaliação dela das minhas intenções deixaram-me a ferver de raiva. – Tu não sabes nada.

Que confusos e incompreensíveis eram os trabalhos da mente dela! Ela não devia pensar da mesma maneira que os outros humanos. Devia ser essa a explicação por detrás do seu silêncio mental. Ela era completamente diferente.

Ela virou a cara, a ranger os dentes. As suas bochechas estavam vermelhas, com raiva outra vez. Ela juntou os livros numa pilha, colocou-os nos braços e marchou em direcção à porta sem olhar para mim.

Mesmo irritado como eu estava, era impossível não achar o seu ódio divertido.

Ela andou desajeitada, sem olhar por onde ia, e o pé dela bateu na ombreira da porta. Ela tropeçou, e as coisas todas caíram no chão. Em vez de se inclinar para as apanhar, ficou parada, rígida, sem sequer olhar para baixo, como se não tivesse a certeza se os livros mereciam ser recuperados.

Consegui não me rir.

Ninguém estava aqui para olhar para mim. Fui rapidamente para o lado dela e pus os livros em ordem antes que ela olhasse para baixo.

Ela inclinou-se, viu-me, e congelou. Entreguei-lhe os livros, tomando o cuidado que a minha pele gelada não tocasse na dela.

- Obrigada. - Disse numa voz fria, severa.

O seu tom trouxe de volta a minha irritação.

- Não tens de quê. - Respondi no mesmo tom frio.

Ela endireitou-se e foi para a sua próxima aula.

Fiquei a olhar até que já não conseguia ver a sua figura furiosa.

A aula de espanhol passou num borrão. A Sra. Goff não questionou a minha distracção, ela sabia que o meu espanhol era superior ao dela, e deu-me liberdade, deixando-me livre para pensar.

Então, eu não conseguia ignorar a rapariga. Isso era óbvio. Mas isso significava que eu não tinha outra saída a não ser destruí-la? Aquele não podia ser o único futuro disponível. Tinha que haver alguma outra escolha, algum equilíbrio. Tentei pensar numa maneira…

Não prestei muita atenção ao Emmett até que a aula terminou. Ele estava curioso. O Emmett não era muito intuitivo sobre os sentimentos dos outros, mas ele conseguia ver uma mudança óbvia em mim. Perguntou-se o que teria acontecido para tirar o insistente olhar de ódio do meu rosto. Lutou consigo mesmo para definir a mudança, e finalmente decidiu que eu parecia esperançoso.

Esperançoso? Era assim que eu parecia por fora?

Ponderei a ideia de esperança enquanto voltávamos para o Volvo, perguntando-me sobre o que é que devia estar esperançoso.

Mas não tive muito tempo para reflectir. Sensível como estava sempre aos pensamentos dos outros sobre a rapariga, o som do nome da Bella nas cabeças dos meus… dos meus rivais, tive que admitir, chamou a minha atenção. Eric e Tyler, tinham ouvido falar, com muita satisfação do fracasso de Mike, e estavam a preparar-se para agir.

Eric já estava pronto, encostado à pick-up dela, de modo a que ela não o conseguisse evitar. A aula de Tyler estava atrasada por causa de um trabalho, e ele estava desesperado por apanhá-la antes que ela escapasse.

Eu tinha que ver isto.

- Espera pelos outros aqui, está bem? - Murmurei ao Emmett.

Ele olhou para mim, suspeito, mas depois encolheu os ombros e acenou.

O miúdo endoideceu. - Pensou, divertido pelo meu pedido esquisito.

Vi a Bella a sair do ginásio, e fiquei à espera onde ela não me conseguisse ver.

Quando ela se aproximou da emboscada de Eric, eu aproximei-me, andando num ritmo que me ia fazer passar por ela no momento certo.

Vi o seu corpo a ficar tenso quando viu o rapaz à espera dela. Ela parou por um momento, depois relaxou e continuou a andar.

- Olá, Eric. – Ouvi-a dizer num tom amigável.

Fiquei inesperadamente ansioso. E se aquele adolescente magro e com problemas de pele fosse de algum modo atraente para ela?

Eric engoliu alto, a sua maçã-de-adão tremeu. - Viva, Bella.

Ela parecia inconsciente do nervosismo dele.

- O que se passa? - Perguntou, enquanto destrancava a pick-up sem olhar para a expressão assustada que ele tinha.

- Ah… estava apenas a pensar… se irias ao baile de primavera comigo. - A voz dele tremeu.

- Pensei que eram as raparigas que escolhiam o seu par. - Disse, parecendo frustrada.

- Bem, e são. - Ele concordou infeliz.

Este pobre rapaz não me irritou tanto quanto Mike Newton, mas eu não conseguia encontrar dentro de mim qualquer simpatia pela sua angústia até que Bella lhe respondeu com uma voz gentil.

- Obrigada por me convidares, mas eu estarei em Seattle nesse dia.

Ele já tinha ouvido isso; mesmo assim, ficou desapontado.

-Ah – Murmurou, mal se atrevendo a levantar os olhos ao nível do nariz dela - Bem, talvez para a próxima?

- Claro. - Ela concordou. Depois mordeu o lábio, como se estivesse arrependida de lhe ter dado uma hipótese. Gostei daquilo.

Eric afastou-se da pick-up e foi-se embora, ia na direcção contrária do seu carro, só queria escapar dali.

Passei por ela naquele momento, e ouvi o seu suspiro de alívio. Eu ri-me.

Ela virou-se ao som, mas eu olhei para a frente, tentando evitar que os meus lábios se contorcessem com o divertimento.

O Tyler estava atrás de mim, quase a correr com pressa de falar com ela antes que ela pudesse ir para casa. Ele estava mais destemido e confiante que os outros dois. Só tinha esperado tanto tempo para abordar Bella porque respeitava que Mike a tinha visto primeiro.

Eu queria que ele conseguisse falar com ela por dois motivos. Se, como estava a começar a suspeitar, toda aquela atenção fosse irritante para Bella, eu queria aproveitar e assistir à sua reacção. Mas, se não, se o convite de Tyler fosse o que ela estava à espera, então eu queria saber disso também.

Medi Tyler Crowley como um rival, sabendo que isso era errado de se fazer. Ele parecia aborrecidamente comum e não se comparava comigo, mas o que sabia eu das preferências de Bella? Talvez ela gostasse de rapazes comuns…

Estremeci com aquele pensamento. Eu jamais conseguiria ser um rapaz comum. Que parvoíce era colocar-me como rival para os seus afectos. Como é que ela se poderia importar com alguém que era, sob qualquer ângulo, um monstro?

Ela era boa de mais para um monstro.

Eu devia deixá-la escapar, mas a minha indesculpável curiosidade evitou que fizesse a coisa certa. Outra vez. E se o Tyler perdesse a sua oportunidade agora, apenas para contactá-la mais tarde quando eu não tivesse maneira de conhecer o resultado? Puxei o meu Volvo para o caminho estreito, bloqueando a saída dela.

O Emmett e os outros estavam a caminho, mas ele tinha-lhes descrito o meu comportamento estranho, então eles estavam a andar lentamente, observando-me, a tentar decifrar o que é que eu estava a fazer.

Olhei para a rapariga pelo retrovisor. Ela olhou para o meu carro com raiva, sem encontrar o meu olhar, como se quisesse estar a conduzir um tanque em vez de uma pick-up Chevy enferrujada.

O Tyler despachou-se para o seu carro e pôs-se na fila atrás dela, agradecendo o meu comportamento inexplicável. Ele acenou-lhe, tentando chamar a sua atenção, mas ela não reparou. Ele esperou um momento, e depois saiu do carro e correu para a janela do lado do condutor dela. Bateu no vidro.

Ela saltou, e depois olhou para ele, confusa. Depois de um segundo, abriu a janela manualmente, parecendo ter algum problema com aquilo.

- Desculpa, Tyler. - Disse numa voz irritada. - Estou encurralada atrás do Cullen.

Ela disse o meu apelido com uma voz dura. Ainda estava zangada comigo.

- Oh, eu sei - Tyler disse, não se importando com o humor dela. – Queria apenas pedir-te algo enquanto estamos aqui presos.

O sorriso dele era convencido.

Fiquei aliviado com a maneira que ela empalideceu com a tentativa óbvia dele.

- Convidas-me para o baile de primavera? - Perguntou, não havia nenhum pensamento de derrota na sua mente.

- Estarei fora da cidade, Tyler. - Ela disse-lhe, a irritação ainda bem presente na sua voz.

- Pois, o Mike falou nisso.

- Então por que é que… - Começou a perguntar.

Ele encolheu os ombros. – Estava com esperança de que estivesses apenas a recusar o convite dele de uma forma simpática.

Os olhos dela queimaram, depois ficaram frios. - Desculpa, Tyler. – Disse-lhe, sem parecer sentir nada. - Eu vou mesmo sair da cidade.

Ele aceitou aquela desculpa, a sua autoconfiança não tinha sido tocada. - Tudo bem, ainda temos o baile de finalistas.

Ele empertigou-se e foi para o seu carro.

Eu tinha razão por ter querido esperar por isto.

A expressão horrorizada no rosto dela era impagável. Disse-me o que eu não devia estar tão desesperado por saber: que ela não sentia nada por nenhum daqueles rapazes humanos que queriam convidá-la.

E também, a expressão dela era possivelmente a coisa mais engraçada que eu já tinha visto.

Então a minha família chegou, confusa pelo facto de que eu estava, para variar, a tremer de riso em vez de estar a fazer uma cara assassina a qualquer coisa que estivesse à vista.

O que é que é tão engraçado? Emmett quis saber.

Eu só abanei a cabeça enquanto me abanava também com uma nova onda de riso quando Bella acelerou seu motor, nervosa. Ela parecia querer o tanque outra vez.

- Vamos embora! - A Rosalie sibilou impaciente. - Pára de ser idiota. Se conseguires.

As palavras dela não me irritaram. Estava demasiado divertido. Mas fiz o que ela pediu.

Ninguém falou comigo no caminho para casa. Continuei a rir-me de vez em quando, a pensar no rosto de Bella.

Quando virei para a estrada, agora acelerava já que não havia testemunhas, a Alice arruinou o meu humor.

- Então agora já posso falar com a Bella? - Perguntou inesperadamente, sem pensar nas palavras primeiro, não me dando um aviso.

- Não. – Disse bruscamente.

- Isso não é justo. Do que é que estou à espera?

- Eu ainda não decidi nada, Alice.

- Como queiras, Edward.

Na cabeça dela, os dois destinos de Bella estavam claros novamente.

- Para quê conhecê-la? - Murmurei, de repente rabugento. - Se vou simplesmente matá-la?

A Alice hesitou por um segundo. – Lá nisso tens razão. - Ela admitiu.

Dei a última curva a 150 km/h e parei a três centímetros da parede da garagem.

- Aproveita a tua corrida. - Disse Rosalie presunçosa quando me atirei para fora do carro.

Mas eu não fui correr hoje. Em vez disso, fui caçar.

Os outros iam caçar amanhã, mas eu não podia estar com sede agora. Exagerei, bebendo mais do que o necessário, fartando-me de novo. Um pequeno grupo de cervos e um urso negro que tive a sorte de encontrar tão cedo este ano. Estava tão cheio que era desconfortável. Por que é que aquilo não podia ser o suficiente? Por que é que o cheiro dela tinha que ser muito mais forte que todas as outras coisas?

Eu tinha caçado para me preparar para o próximo dia, mas, quando não conseguia caçar mais e o sol ainda estava a horas de nascer, soube que o próximo dia não chegaria rápido o suficiente.

A enorme tensão passou por mim outra vez quando percebi que ia à procura da rapariga.

Eu discuti comigo mesmo todo o caminho de volta a Forks, mas o meu lado menos nobre ganhou a discussão, e eu segui adiante com o meu plano indestrutível. O monstro estava inquieto, mas bem alimentado. Eu sabia que ia manter uma distância segura dela. Só queria saber como é que ela estava. Só queria ver a sua cara.

Passava da meia-noite e a casa de Bella estava escura e silenciosa. A pick-up dela estava estacionada contra a cerca da casa e o carro patrulha do seu pai estava na entrada da casa. Não havia pensamentos conscientes em lugar nenhum na vizinhança. Olhei para a casa por um momento, da escuridão da floresta que a cercava do lado este. A porta da frente provavelmente estava trancada, não que isso fosse um problema, excepto que eu não queria deixar a porta partida como prova para trás. Decidi tentar a janela de cima, primeiro. Não existiam muitas pessoas que se incomodavam a instalar uma fechadura ali.

Passei pelo jardim aberto e escalei a parede da casa em meio segundo. Pendurado por uma mão no parapeito da janela, olhei pelo vidro, e a minha respiração parou.

Era o quarto dela. Eu conseguia vê-la, os cobertores no chão e os lençóis enrolados nas suas pernas. Enquanto eu olhava, ela virou-se inquieta e colocou um braço por cima da cabeça. Ela não dormia profundamente, pelo menos não esta noite. Será que sentia o perigo próximo?

Fiquei com nojo de mim próprio quando a vi mexer-se outra vez. Como é que eu era melhor do que qualquer outro bisbilhoteiro? Eu não era melhor. Era muito, muito pior.

Relaxei as pontas dos meus dedos, preparado para me deixar cair. Mas primeiro permiti a mim mesmo lançar um longo olhar na direcção da cara dela.

Não estava tranquila. A pequena ruga entre as suas sobrancelhas, os cantos dos seus lábios para baixo. Os lábios dela tremeram, e então abriram-se.

- Está bem, mãe. - Resmungou.

A Bella falava durante o sono.

A curiosidade invadiu-me, mais forte que o nojo que tinha por mim mesmo. O encanto daqueles pensamentos falados, desprotegidos e inconscientes, era incrivelmente tentador.

Tentei abrir a janela, e não estava fechada, embora tenha encravado por ter ficado tanto tempo sem ser aberta. Eu empurrei-a lentamente para o lado, rangendo a cada pequeno gemido que a moldura de metal fazia. Tinha que arranjar algum óleo para a próxima vez…

Próxima vez? Eu abanei a cabeça, com nojo de novo.

Passei silenciosamente pela janela meio aberta.

O quarto dela era pequeno. Desorganizado, mas não sujo. Havia livros empilhados no chão perto da sua cama, as lombadas viradas para o outro lado, e CDS espalhados perto do seu discman barato. O que estava por cima era só uma caixa vazia. Papéis cercavam um computador que mais parecia pertencer a um museu dedicado a tecnologias obsoletas. Sapatos estavam no chão de madeira.

Eu queria muito ir ler os títulos dos seus livros e CDS, mas tinha prometido que ia manter a distância. Em vez disso, fui-me sentar na velha cadeira de balanço no outro canto do quarto.

Eu tinha mesmo alguma vez pensado que ela tinha um aspecto comum? Pensei naquele primeiro dia, e no meu nojo pelos rapazes que ficaram tão rapidamente intrigados por ela. Mas quando me lembrei do rosto dela nos pensamentos deles, não conseguia entender por que é que não a tinha achado linda imediatamente. Parecia uma coisa óbvia.

Neste momento, com o seu cabelo escuro embaraçado e selvagem à volta da sua cara pálida, a usar uma t-shirt cheia de buracos e umas calças esfarrapadas, ela tirou-me a respiração. Ou teria tirado, pensei ironicamente, se eu estivesse a respirar.

Ela não falou. Talvez o sonho tivesse terminado.

Olhei para a cara dela e tentei pensar nalguma maneira de deixar o futuro suportável.

Magoá-la não era suportável. Isso significava que minha única escolha era tentar ir embora novamente?

Os outros não podiam discutir comigo agora. A minha ausência não iria colocar ninguém em perigo. Não iria haver nenhuma suspeita, nada para levar os pensamentos de ninguém de volta ao acidente.

Vacilei como tinha feito esta tarde, e nada pareceu possível.

Não podia estar à espera de ser rival dos rapazes humanos, quer esses rapazes específicos a atraíssem ou não. Eu era um monstro. Como é que ela me podia ver de outra forma? Se ela soubesse a verdade sobre mim, ia assustá-la e repulsá-la. Como a vítima num filme de terror, ela ia correr, a gritar de horror.

Lembrei-me do primeiro dia dela na aula de biologia… e sabia que aquela seria exactamente a reacção certa para se ter.

Era uma parvoíce imaginar que se fosse eu quem a tivesse a convidado para aquele baile idiota, ela teria cancelado os seus planos feitos em cima da hora e teria concordado em ir comigo.

Não era a mim que ela estava destinada a dizer sim. Era a outra pessoa, humana e quente. E eu nem me podia permitir - algum dia, quando ela dissesse sim – a persegui-lo e matá-lo, porque ela merecia-o, quem quer que fosse que tivesse escolhido.

Ela merecia que eu fizesse a coisa certa agora. Já não podia fingir que estava só em perigo de amar esta rapariga.

Afinal de contas, não fazia diferença se eu fosse embora, porque Bella jamais me iria ver da maneira que eu queria que ela visse. Ela nunca me ia ver como alguém que merecesse ser amado.

Nunca.

Podia um coração morto, gelado, despedaçar-se? Parecia que o meu podia.

- Edward. - Disse Bella.

Eu congelei, a olhar para os seus olhos fechados.

Ela tinha acordado, tinha-me visto aqui? Ela parecia adormecida, mas a sua voz tinha sido tão clara…

Ela suspirou calmamente, e depois mexeu-se inquieta outra vez, dando uma volta – ainda a dormir e sonhar.

- Edward. - Murmurou suavemente.

Ela estava a sonhar comigo.

Podia um coração morto, gelado, bater de novo? Parecia que o meu podia.

- Fica. - Suspirou. - Não vás. Por favor… não vás.

Ela estava a sonhar comigo, e não era um pesadelo. Ela queria que eu ficasse com ela, ali no seu sonho.

Eu lutei para encontrar palavras para dar nome aos sentimentos que me invadiram, mas não existiam palavras fortes o suficiente para descrevê-los. Por um longo momento, afoguei-me neles.

Quando voltei à superfície, não era o mesmo homem que tinha sido.

A minha vida era uma a meia-noite, sem mudanças, sem fim. Devia, por necessidade, ser sempre meia-noite para mim. Então como é que era possível que o sol estivesse a nascer agora, bem a meio da meia-noite?

No momento em que me tornei um vampiro, trocando a minha alma e mortalidade por imortalidade na dor abrasadora da transformação, eu tinha realmente congelado. O meu corpo tinha-se transformado em algo mais parecido com pedra do que carne, permanente e sem mudanças. Até eu, também, tinha congelado como era. A minha personalidade, os meus gostos e desgostos, os meus humores e os meus desejos, estavam todos fixos num lugar.

Era a mesma coisa para o resto deles. Todos nós estávamos congelados. Pedras vivas.

Quando uma mudança chegava para um de nós, era uma coisa rara e permanente. Tinha visto isso acontecer com Carlisle, e uma década depois, com Rosalie. O amor tinha-os mudado de uma maneira irremediável, uma maneira que nunca mais mudava. Mais de oitenta anos tinham-se passado desde que Carlisle tinha encontrado Esme, e ele ainda a olhava com os olhos incrédulos do primeiro amor. Seria sempre assim para eles.

Seria sempre assim para mim também. Eu ia sempre amar esta frágil rapariga humana, pelo resto da minha existência sem limites.

Olhei para o seu rosto inconsciente, sentindo esse amor por ela a acomodar-se em cada célula do meu corpo de pedra.

Ela dormia com mais calma agora, um sorriso fraco nos lábios.

Sem deixar de a observar, comecei a planear.

Eu amava-a, então ia tentar ser forte o suficiente para a deixar. Eu sabia que neste momento não era forte o suficiente. Ia ter que trabalhar nisso. Mas talvez eu fosse forte o suficiente para moldar o futuro de outra maneira.

A Alice tinha visto só dois futuros para a Bella, e agora eu entendia os dois.

Amá-la não ia evitar que eu a matasse, se cometesse erros.

Mas eu não conseguia sentir o monstro agora, não conseguia encontrá-lo em nenhum lugar dentro de mim. Talvez o amor o tivesse silenciado para sempre. Se eu a matasse agora, não seria intencional, só um horrível acidente.

Eu teria de ser extraordinariamente cuidadoso. Jamais, jamais seria capaz de baixar a guarda. Ia ter que controlar cada respiração. Ia ter de manter sempre uma distância segura.

Não ia cometer erros.

Finalmente entendi o segundo futuro. Tinha estado aterrorizado com aquela visão. O que é podia possivelmente acontecer que resultaria em Bella a tornar-se uma prisioneira desta meia-vida imortal? Agora, devastado por desejar a rapariga, eu conseguia entender como eu podia, num egoísmo indesculpável, pedir ao meu pai esse favor. Pedir-lhe que tirasse a vida e a alma dela para que eu pudesse ficar com ela para sempre.

Ela merecia melhor.

Mas eu vi mais um futuro, uma linha estreita pela qual eu talvez pudesse caminhar, se pudesse manter o meu equilíbrio.

Conseguiria fazê-lo? Ficar com ela e deixá-la humana?

Deliberadamente, inspirei fundo e depois outra vez, deixando que o seu cheiro passasse por mim como fogo. O quarto estava cheio do seu perfume, a fragrância dela saía de cada superfície. A minha cabeça girou, mas eu lutei contra a tontura. Teria que me habituar àquilo, se eu fosse tentar ter qualquer tipo de relacionamento com ela. Respirei novamente, deixando o ar queimar-me.

Observei-a a dormir até que o sol nasceu atrás das nuvens a este, a planear e a respirar.







Voltei para casa quando os outros já tinham ido embora para a escola. Mudei de roupa rapidamente, evitando os olhos cheios de perguntas de Esme. Ela viu a luz febril no meu rosto, e sentiu preocupação e alívio. A minha melancolia sem fim magoava-a, e ela estava feliz porque parecia ter acabado.

Corri para a escola, chegando poucos segundos depois dos meus irmãos. Eles não se viraram, embora Alice deva ter desconfiado que eu estava parado aqui nas grossas árvores que cercavam o asfalto. Esperei até que ninguém estivesse a olhar, e depois andei casualmente por entre as árvores até o estacionamento cheio de carros.

Ouvi a pick-up de Bella a rugir na esquina, e parei atrás de um Suburban onde podia observá-la sem ser visto.

Ela dirigiu-se até o estacionamento, e olhou para o meu Volvo durante um longo momento antes de parar numa das vagas mais distantes, tinha uma careta no seu rosto.

Era estranho lembrar-me que ela provavelmente ainda estava zangada comigo, e por um bom motivo.

Eu queria rir-me de mim mesmo, ou bater-me. Todo o meu esquema e planeamento eram totalmente inúteis se ela não se importasse comigo, não eram? O sonho dela pode ter sido sobre alguma coisa aleatória. Eu era mesmo um idiota arrogante.

Bem, era muito melhor para ela se não se importasse comigo. Isso não me impediria de a perseguir, mas eu avisá-la-ia da minha perseguição. Devia-lhe isso.

Andei silenciosamente, a pensar em qual seria a melhor forma de me aproximar dela.

Ela tornou aquilo mais fácil. A chave da pick-up escorregou pelos seus dedos quando saiu, e caiu numa poça funda.

Ela inclinou-se, mas eu cheguei primeiro, recuperando-a antes que ela tivesse que pôr os dedos na água fria.

Encostei-me contra a pick-up enquanto ela olhava para mim, e depois endireitou-se.

- Como é que fizeste isso? - Exigiu.

Sim, ainda estava chateada.

Ofereci-lhe a chave. – Como é que fiz o quê?

Ela esticou a mão, e eu deixei-a cair na sua palma. Respirei fundo, absorvendo o cheiro.

- Aparecer vindo do nada. - Esclareceu.

- Bella, eu não tenho culpa de que tenhas uma excepcional falta de poder de observação. - As palavras eram sarcásticas, quase uma piada. Havia alguma coisa que ela não visse?

Será que ela ouviu como a minha voz disse o nome dela com carinho?

Ela olhou para mim, não estava a apreciar o meu humor. O seu batimento cardíaco acelerou. De raiva? De medo? Depois de um momento, olhou para baixo.

- Qual foi o motivo do engarrafamento da noite passada? – Perguntou-me sem me olhar nos olhos. - Pensei que andasses a fingir que eu não existo e não a matar-me de irritação.

Ainda estava bastante zangada. Ia levar algum esforço para deixar as coisas bem com ela. E lembrei-me da minha resolução de ser honesto com ela…

- Foi pelo bem do Tyler, não pelo meu. Tinha de lhe proporcionar a sua oportunidade. - E então ri-me. Não conseguia evitar, ao pensar na expressão dela ontem.

- Seu…! - Ofegou, e depois parou, parecendo estar demasiado furiosa para terminar. Ali estava: a mesma expressão. Abafei outro riso. Ela já estava zangada o suficiente.

- E não ando a fingir que tu não existes. - Terminei. Era certo manter as coisas casuais, em tom de gozo. Ela não iria entender se eu a deixasse ver como me sentia na realidade. Iria assustá-la. Tinha que manter os meus sentimentos sob controlo, manter as coisas ligeiras…

- Então andas mesmo a tentar matar-me de irritação? Já que a carrinha do Tyler não se encarregou de o fazer?

Um rápido lampejo de raiva passou por mim. Como é que ela podia honestamente acreditar naquilo?

Era irracional da minha parte ficar tão ofendido. Ela não sabia da transformação que tinha acontecido a noite passada. Mas a raiva era a mesma.

- Bella, és completamente absurda. – Disse bruscamente.

O rosto dela corou, e ela virou-se de costas para mim. Começou a ir-se embora.

Remorso. Eu não tinha direito à minha raiva.

- Espera. – Pedi.

Ela não parou, então segui-a.

- Desculpa, foi indelicado da minha parte. Não estou a dizer que não é verdade. - Era absurdo imaginar que eu a queria magoada de alguma maneira. – Mas, de qualquer forma, foi indelicado da minha parte afirmá-lo.

- Porque é que não me deixas em paz?

Acredita, eu quis dizer. Eu tentei.

Ah, e outra coisa, estou miseravelmente apaixonado por ti.

Manter as coisas ligeiras.

- Queria perguntar-te algo, mas tu desviaste-me dos meus fins. - Outro curso de acção tinha acabado de me ocorrer, e eu ri-me.

- Sofres de um distúrbio de múltipla personalidade? - Perguntou.

Devia parecer que sim. O meu humor instável, tantas emoções novas a passar por mim.

- Lá estás tu outra vez. – Informei-a.

Ela suspirou. – Então, muito bem. O que queres perguntar-me?

- Estava a pensar se, de sábado a uma semana… - observei o choque a passar-lhe pelos olhos e sufoquei outra gargalhada. - Tu sabes, o dia do baile da Primavera …

Ela interrompeu-me, finalmente a dirigir-me o olhar. – Estás a tentar ser engraçado?

Sim. - Fazes o favor de me deixar terminar?

Ela esperou em silêncio, os dentes a morder o lábio macio inferior.

Aquela visão distraiu-me por um momento. Reacções estranhas, desconhecidas agitaram-se no fundo do meu esquecido núcleo humano. Tentei livrar-me delas para que pudesse fazer o meu papel.

- Ouvi-te dizer que ias a Seattle nesse dia e estava a pensar se quererias boleia. - Ofereci. Tinha-me apercebido que, melhor do que perguntar-lhe sobre os seus planos, podia partilhá-los.

Ela olhou-me inexpressivamente. – O quê?

- Queres boleia para Seattle? - Sozinho no carro com ela, a minha garganta queimou com o pensamento. Respirei fundo. Habitua-te.

- De quem? - Perguntou, os seus olhos arregalados e confusos outra vez.

- De mim, obviamente. – Disse-lhe lentamente.

- Porquê?

Era um choque assim tão grande que eu quisesse a companhia dela? Ela devia ter chegado à pior conclusão possível do meu comportamento passado.

-Bem, eu tencionava ir a Seattle durante as próximas semanas e, para ser sincero, não sei se a tua pick-up resistirá à viagem. - Era mais seguro provocá-la do que me permitir ser sério.

-A minha pick-up funciona perfeitamente, muito obrigada pela tua preocupação. - Disse na mesma voz surpreendida. E começou a andar outra vez. Continuei a segui-la.

Ela não tinha dito não, então pressionei essa vantagem.

Será que ela ia dizer não? O que é que eu fazia se ela dissesse?

- Mas será que a tua pick-up consegue realizar a viagem consumindo um só depósito de combustível?

- Não vejo em que medida é que isso possa dizer-te respeito. - Ela reclamou.

Ainda não era um não. E o coração dela estava a bater mais rápido outra vez, a respiração mais rápida.

- O desperdício de recursos limitados diz respeito a todos.

- Francamente, Edward, não consigo acompanhar-te. Pensei que não querias ser meu amigo.

Uma forte emoção atravessou-me quando ela disse o meu nome.

Como manter isto ligeiro e ser honesto ao mesmo tempo? Bem, era mais importante ser honesto. Especialmente nesta questão.

- Eu disse que seria melhor se não fôssemos amigos e não que não queria que fôssemos.

- Oh, obrigada, agora está tudo esclarecido. - Disse sarcasticamente.

Ela parou, sob o teto da cantina, e encontrou o meu olhar novamente. As batidas do seu coração estavam aceleradas. Estava com medo?

Escolhi as minhas palavras cuidadosamente. Não, eu não conseguia deixá-la, mas talvez ela fosse esperta o suficiente para me deixar, antes que fosse demasiado tarde.

- Seria mais… prudente que não fosses minha amiga. – Enquanto olhava para a profundeza do chocolate derretido nos seus olhos, perdi a minha segurança na luz. - Mas estou farto de tentar manter-me afastado de ti, Bella. - As palavras queimaram com demasiado fervor.

A sua respiração parou e, quando voltou a respirar, aquilo preocupou-me. Quanto é que a tinha assustado? Bem, eu ia descobrir.

- Vais comigo a Seattle?

Ela acenou, com o coração a bater mais alto.

Sim. Ela tinha-me dito sim, a mim.

E depois a minha consciência sufocou-me. O que é que isso lhe iria custar?

- Devias mesmo manter-te afastada de mim. Alertei-a. Será que ela me ouvia? Será que ela iria escapar do futuro com o qual eu a estava a ameaçar? Eu não podia fazer nada para que a salvasse de mim?

Mantém-te ligeiro, avisei-me. – Vemo-nos na aula

Tive que me concentrar para me impedir de correr enquanto fugia.